O escritor Leonardo Viso apresenta ao público "A árvore invisível cinza", uma coletânea poética que subverte a tradicional busca pelas origens familiares ao transformar a genealogia em uma floresta simbólica. A obra nasce de uma inquietação pessoal diante de documentos oficiais e certidões digitalizadas que, ao invés de esclarecerem o passado, revelaram lacunas, nomes trocados e segredos sussurrados. Diante do silêncio dos papéis, o autor recorre à poesia para preencher os vazios deixados pelo tempo e pelo esquecimento, construindo uma narrativa onde cada parente é associado a uma espécie botânica distinta, do carapeteiro ao ipê-rosa.
A estrutura do livro é uma de suas principais inovações, organizando-se não por cronologia linear, mas por espécimes vegetais que compõem uma "floresta de árvores cinzas". Ao dividir o texto em partes que remetem ao ciclo de vida e à estrutura das plantas — como raízes expostas e manguezal —, Viso cria um inventário lírico onde características humanas e vegetais se fundem. Os poemas exploram a fisicalidade dessa fusão, descrevendo pernas enraizadas e olhos de seiva, sugerindo que a história de uma família é um organismo vivo que cresce, retorce e resiste, mesmo em solo adverso.
Esteticamente, a obra aposta em um verso contido e, por vezes, minimalista, que ganha força através da repetição e do ritmo visual na página. O texto evita o excesso para focar na essência fragmentada da lembrança, onde a memória é comparada à polpa de uma fruta que pode ser doce, ácida ou feita para apodrecer e nutrir novas sementes. Essa escolha estilística reflete a própria natureza falha da memória oral, capturando a gagueira, os desencontros e as reiterações típicas das histórias contadas em ambientes domésticos, longe dos registros formais.
Mais do que um relato íntimo, "A árvore invisível cinza" projeta-se como um comentário sociológico sobre a identidade brasileira e o apagamento histórico. O livro aborda a realidade de genealogias marcadas por migrações forçadas e pela destruição de registros, tocando em feridas de grupos historicamente marginalizados, como negros, indígenas e pobres. O fogo aparece como um elemento central e ambíguo na narrativa, atuando tanto como força devastadora que queima arquivos e histórias quanto como agente transformador que prepara o terreno para o renascimento.
A narrativa culmina na ideia de resistência, sugerindo que a poesia assume o papel de cartório possível em um país acostumado a queimar sua própria história. Ao transitar entre o Espírito Santo, cenário de muitas dessas memórias, e outros estados, o autor mapeia uma geografia afetiva que se recusa a desaparecer. "A árvore invisível cinza" é, portanto, um livro sobre o que germina após o incêndio, celebrando as raízes profundas que sobrevivem invisíveis sob a terra e garantem que, apesar das cinzas, a floresta continue a existir dentro de quem lembra.
Sobre a obra
- Gênero
- Poesia
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 72
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 05/02/2026
- ISBN
- 978-65-6042-226-1
- Preço de capa
- R$ 59,90
A árvore invisível cinza é um passeio poético sobre memórias e segredos de uma família do interior do estado do Espírito Santo, atravessando gerações e se espalhando pelo Brasil. É uma pintura quase abstrata de uma família brasileira. O livro nasceu de fiapos de lembranças, das histórias que o tempo tentou apagar. Entre gerações, lugares e incógnitas, os poemas acompanham a busca do autor por retratar antepassados muitas vezes esquecidos, atravessando histórias orais, imagens, certidões e relatos que resistiram ao esquecimento. Cada familiar é representado por uma árvore - em sua grande maioria espécie de Mata Atlântica. Arquivos digitais revelam nomes e trajetórias, enquanto a destruição de um cartório antigo transforma parte dessa pesquisa em pó, deixando apenas fragmentos. Como folhas queimadas de um livro que não deveria existir, histórias apagadas — de famílias, povos e vidas perimetrais — germinaram nas raízes profundas da memória. Entre ausência e lembrança, o livro constrói uma árvore genealógica invisível, cinza, resistente, capaz de florescer nas lacunas da história, lembrando que aquilo que o fogo não destrói, a memória faz brotar
Citações
“Entre o que se lembra e o que se perdeu, A árvore invisível cinza nasce dos borralhos da memória. Ramos queimados, nomes esquecidos, histórias que o tempo tentou apagar — mas que insistem em brotar. Nas frestas da história oficial, o livro encontra vestígios: vozes, documentos, silêncios. O que o fogo destruiu, a memória refaz — invisível, resistente, viva.”
“Um passeio por uma floresta de memórias e segredos familiares. A genealogia (não) oficial, oral e imaginária de uma família vinda do interior do Espírito Santo que, ao passar dos anos, cresce da mesma maneira que se desintegra, sobretudo a história, para outros territórios.”
Sobre a autoria
Leonardo Viso
Leonardo Viso é jornalista e escritor capixaba, radicado no Rio de Janeiro. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e com mestrado em Representação Social, Cultura de Massas e Cidades pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), atua há quase duas décadas na área, com passagem por projetos e empresas como o Multishow e a TV Globo, construindo uma trajetória marcada pelo interesse em narrativas, memória e linguagem. A escrita de Leonardo Viso é o lugar onde arte e vida se entrelaçam em formas de contos, crônicas e poemas. São textos vindos de pequenas descobertas que se escondem no cotidiano e histórias que insistem em sobreviver ao esquecimento. Nesses ecritos, arte e vida tornam-se irmãs xifópagas, inseparáveis, pulsando juntas no olhar atento de quem observa o mundo. “A Árvore Invsível Cinza” é seu primeiro livro publicado e parte de uma investigação íntima sobre o tempo, território e memórias familiares tiradas do silêncio das lembranças. No livro, o autor metamorfaseia sua árvore genologia em uma floresta imagiária, onde cada parente é uma árvore.
Ficha técnica
| Autoria | Leonardo Viso | |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Augusto Oliveira | |
| Revisão | Matheus Mitre | @mmitretayar |
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