O escritor Igor dos Santos Mota lança sua mais nova obra poética, "Se essa rua fosse minha", um livro de contundente denúncia histórica e resgate ancestral dedicado aos nomes que construíram o Brasil, mas que ainda não figuram nas placas de rua. Com uma narrativa que entrelaça poesia, crítica social e memória, o autor convida o leitor a questionar o que há por trás das paredes e a enxergar as "tripas da arquitetura de um país", revelando o valor dos corpos-territórios marginalizados que, historicamente, alicerçaram a nação. Uma leitura fundamental para a compreensão das dinâmicas de opressão e resistência no país. A motivação principal para o desenvolvimento do livro, que ganhou fôlego a partir da oficina Projeto Editorial Poético promovida pela editora Mondru em 2024, nasce da própria genealogia do autor. Fruto de um processo histórico de colonialismo e de migração forçada do Nordeste para o Sudeste, Mota homenageia seus avôs e tios, que deixaram suas terras para trabalhar como pedreiros, mineradores e mestres de obras, deixando sangue e suor nos bolsos de construtoras multimilionárias. Em paralelo, a obra exalta as mulheres de sua família, verdadeiras arquitetas do cotidiano, descritas afetuosamente como "mulheres-Casa". Narrativamente, o poemário inova ao ser estruturado não em capítulos comuns, mas em três "fiadas" — uma metáfora direta com as camadas de tijolos na construção civil. A primeira fiada, intitulada "Confissões do Lodo", propõe recontar a história do Brasil "a contrapelo", inspirado no pensamento de Walter Benjamin. Nesta seção, o autor subverte a narrativa oficial para dar voz aos traumas e aos oprimidos, evidenciando que, embora as opressões se repitam de forma cíclica, elas podem ser implodidas pela força do Coletivo e da Arte.
A grande inovação estilística e conceitual da obra atinge seu ápice no segundo ato, "Autópsia das Entranhas". Fugindo do lirismo tradicional, Igor dos Santos Mota incorpora a persona de um crítico de arte elitista e fictício, chamado P. N. C., para tecer uma sátira mordaz sobre a própria Crítica de Arte. Ao descrever quadros e fotografias históricas, essa voz normativa e distoante distorce e apaga os recalques políticos, o racismo e a violência inerentes à formação do Brasil. Para marcar essa ruptura, o autor altera propositalmente a forma dos poemas, adotando o uso normativo de pontuação e maiúsculas, esgarçando a estrutura do texto para criticar a branquitude e a soberba no mundo das artes.
No terceiro e último ato, "Poética das Fissuras", a obra retorna à sua essência de resgate ao apresentar dezesseis "memórias ântumas" dedicadas aos filhos e filhas do lodo. Utilizando o conceito de "interpoeticações", Mota ficcionaliza as vivências de seus familiares e de outras vozes invisibilizadas, desvelando suas contradições, dores e a complexidade de serem humanos — um direito que lhes foi historicamente negado.
"Se essa rua fosse minha" desponta no cenário literário contemporâneo não apenas como um tributo poético, mas como um manifesto contra o apagamento. O lançamento convida o público e a crítica a conhecerem essa infinda linhagem de trabalhadores e azulejos que resistem e recriam o Brasil dia após dia. Com uma poética que transforma o lodo, as entranhas e as fissuras em literatura de altíssima qualidade, Igor dos Santos Mota prova que é a partir das rachaduras do passado que se constrói a verdadeira identidade de um povo.
Sobre a obra
- Gênero
- Poesia
- Selo
- Mondru
- Lançamento
- 16/05/2026
- ISBN
- A caminho
- Preço de capa
- R$ 59,90
"Todo poema começa com um engasgo" — é a partir deste mote que se erguem os poemas de "Se essa rua fosse minha". Cercando as encruzas entre arquitetura colonial e estruturas de poder contemporâneas, o livro trança narrativas de migração interna e trabalho exploratório às narrativas sobre a formação do Brasil. Com base em sua própria genealogia, marcada por gerações de trabalhadores/as da construção civil, o autor investiga como corpos-territórios feridos pelo projeto colonial continuam a (re)construir o país que conhecemos. O prumo da linguagem aqui não é polido para ser confortável, pelo contrário. Ela é uma pedra rachada, inacabada, ecoando o lodo da História única que questiona, dando espaço às ramagens que brotam das fissuras. Os desvios normativos empregados refletem as rupturas deixadas pelo colonialismo, afirmando a legitimidade de vozes frequentemente "regionalizadas" em espaços literários. O convite a quem lê é justamente esse: questionar quem/o que está por trás das paredes, dentro das entranhas da arquitetura de um país.
Citações
“Esta obra é o que sonho e o que desejo para a poesia brasileira, para nossa literatura contemporânea. Cada palavra está onde está porque tudo foi muito pensado e tratado com imenso esmero. Me senti abrindo o armário de xícaras da minha bisavó – deus que me livre de esbarrar num pires sem querer. A escrita de Igor me chega tão nova, corajosa. É de uma genialidade chocante.” JARID ARRAES”
“Vencedora dos Prêmios APCA e Biblioteca Nacional Finalista do Prêmio Jabuti”
Sobre a autoria
Igor dos Santos Mota
@igormotaigorIgor dos Santos Mota nasceu em 2000 e foi criado à beira do açude Jacurici, no Povoado de Bela Vista, em Cansanção (BA). É professor-poeta-tradutor e doutorando em educação na Universidade de Derby, Inglaterra. Teve textos publicados, performados e/ou premiados no Brasil, Estados Unidos, Grécia, Índia, Irlanda, Portugal e Reino Unido. "Se essa rua fosse minha" é seu terceiro livro.
Ficha técnica
| Autoria | Igor dos Santos Mota | @igormotaigor |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Augusto Oliveira | |
| Revisão | Maike Ferreira Piazzoli |
Contato
Imprensa: imprensa@mondru.com
Site: mondru.com/livros/se-essa-rua-fosse-minha/