O livro transcende a frieza dos relatórios técnicos para dar voz a fragmentos de memória e à indignação de pessoas cujas vidas foram literalmente inundadas pelo avanço de grandes projetos de infraestrutura. Trata-se de uma narrativa sensível que resgata a história de centenas de famílias cujos lares e sonhos desapareceram sob a vasta superfície azul do reservatório.
Lincoln de Barros utiliza sua experiência para construir uma obra que desafia gêneros tradicionais, fundindo a realidade da auditoria social com a liberdade da ficção. Através da jornada do narrador Santiago e da coordenadora Irene Delavigne, o livro detalha o processo de escuta ativa de uma população invisibilizada por números oficiais. Barros transforma a tarefa burocrática de verificar o cumprimento de políticas de reassentamento em uma exploração profunda da condição humana frente ao deslocamento forçado.
A grande inovação da obra reside em sua narrativa multifacetada, que intercala depoimentos reais, anúncios de rádio, ofícios corporativos e comunicações de movimentos sociais. Essa "colcha de retalhos" documental permite ao leitor mergulhar na tensão entre a "Companhia" e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), revelando as táticas de pressão e a luta por reconhecimento de direitos fundamentais. O autor dá destaque especial àqueles que o cadastro oficial negligenciou: garimpeiros, meeiros e arrendatários que perderam o chão sem direito à indenização justa.
As qualidades literárias do texto manifestam-se na descrição vívida do "modo de produção local" agora extinto. Barros descreve com amargor e beleza o cotidiano das beiras do Rio Maranhão, onde a agricultura de subsistência e o garimpo tradicional ditavam o ritmo das estações antes de serem engolidos por um "desenvolvimento" que não foi pensado para os locais. A obra expõe o drama de comunidades isoladas, o fechamento de escolas e até o desrespeito aos cemitérios, cujos mortos foram "afogados" pelo fechamento súbito das comportas.
O autor convida o público a confrontar o que o capital trata como "lendas" ou "fantasmas": os trabalhadores cujos direitos foram sacrificados em prol do lucro energético. O livro funciona, portanto, como um tributo à resistência dessas gentes e um alerta persistente sobre a sistematização de violações de direitos humanos em áreas de barragens no Brasil.
Terras Submersas é uma leitura essencial que apresenta a história pelo lado de quem ainda não venceu. Ao documentar a indignação transformada em ficção, Lincoln de Barros oferece uma reflexão ética sobre o custo social do progresso e a importância da reparação integral. É uma obra que prova que, embora as terras estejam submersas, as vozes e as verdades daqueles atingidos continuam a emergir, exigindo que seu valor não seja medido apenas em metros quadrados.
Sobre a obra
- Gênero
- Romance
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 168
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 24/06/2024
- ISBN
- 978-65-6042-077-9
- Preço de capa
- R$ 69,90
O lugar é Minaçu, a hidrelétrica é Cana Brava, o resto são anotações ralas, registros esparsos de vozes e
fragmentos de memória e de indignação transformados em ficção. E, sob outros nomes, todos nós
personagens fomos reais.
Uma usina abre suas comportas e inunda sem aviso as terras ribeirinhas. Uma torrente enorme,
subitamente liberada, submergindo tudo, como quisesse afogar toda lembrança, todo cultivo e
transformar em ruínas tudo o que tivesse sido tocado pela mão daquelas pessoas. Pequenos proprietários,
arrendatários, garimpeiros, trabalhadores temporários, estes são os personagens do drama. A partir de
fatos e depoimentos reais, no cenário do irreversível, a voz e os sonhos dessas pessoas e sua busca por
justiça passam pelas páginas do livro, conduzidos até o seu desenlace por protagonistas imersos na trama
e, ao mesmo tempo, impotentes em sua indignação.
As terras e os sonhos submersos: uma história contada por quem ainda não venceu.
Citações
“Desde o dia em que teve que conter as lágrimas, ouvindo aquele velho posseiro contando sobre as águas da represa que subiam de madrugada pelas suas pernas e de sua mulher, sem aviso, cobrindo impiedosamente os pés da cama, das cadeiras e da mesinha de madeira da sala, escorrendo pelos fundos, o pequeno pomar já quase tomado, os dois vira-latas latindo furiosamente, quase sem tempo de pegar algumas roupas e uns poucos trecos e subir pela encosta, para esperar o dia amanhecer e a claridade revelar aos poucos o imenso lago...”
Sobre a autoria
Lincoln de Barros
@lincolndebarrosLincoln de Barros é mineiro de Belo Horizonte, licenciado em Filosofia, muitos anos de trabalho na área pública em informática e outro tanto em projetos para organismos internacionais de desenvolvimento. Na juventude foi balconista de farmácia, motorista de táxi, aprendiz de ator, professor de Filosofia e sindicalista, entre outras experiências. Atualmente é presidente da Fundação Grupo Esquel Brasil, voltada para alternativas de desenvolvimento sustentável. Autor do romance TERRAS SUBMERSAS, lançado na FLIP em 2024 pela Mondru Editora, publicou recentemente contos e poemas em algumas antologias, sendo VIAGEM NA COREOGRAFIA DA MENTE a mais recente, também pela Mondru. Ilustrador: CARLOS WOLNEY, mineiro de Formiga, artista plástico formado pela Escola Guignard, teve entre seus mestres Maria Helena Andrés, Sara Ávila, Lotus Lobo, Yara Tupinambá e Nello Nuno. Na sua atuação marcada por seu pensamento sobre a arte e o ensino de arte, teve extensa atuação como professor na própria Escola Guignard, onde foi diretor, e também na Escola de Belas Artes da UFMG e na Fundação de Arte de Ouro Preto, onde trabalhou com Moacyr Laterza e Amílcar de Castro. A maestria de seu trabalho passou pelo desenho, a gravura e a pintura: a natureza, as árvores, as montanhas e as cidades históricas de Minas, tendo participado de diversos salões de arte e exposições individuais e coletivas. Suas obras estão em coleções particulares e de instituições oficiais.
Ficha técnica
| Autoria | Lincoln de Barros | @lincolndebarros |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Augusto Oliveira | |
| Revisão | Kah Dantas |
Contato
Imprensa: imprensa@mondru.com
Site: mondru.com/livros/terras-submersas/