Descrição

Autor
Silvio Valentin Liorbano
Páginas
80
Gênero
Poesia
Formato
Brochura 14×21
ISBN
9786584634701
Será a vida toda do artista
Um passar de chapéu pelas estações?
Nova York, Paris, Lisboa, São Paulo, Paraty.
Faz frio na rua deserta do estômago,
Mas a menina canta, canta, canta…
Ainda que ninguém ouça
A arte se dá no campo da generosidade e as ruas acolhem quem espalha sons, cores e cobre retorcido, que toma forma de brincos, colares e anéis – os músicos, pintores, artesãos e poetas soltos pelas ruas do mundo como se fossem pardais urbanos. O que seria das praças e calçadas sem a presença dos artistas e da beleza? O que seria de nós? O livro em suas mãos é anterior a fama – dedica haicais, versos livres e alguma prosa poética numa tentativa de expressar gratidão. Um menino que caminha desde as ruas da infância num bairro da zona sul de São Paulo até alcançar as pedras portuguesas das longas calçadas de Lisboa. Lançar luzes sobre pessoas que se dedicam a enfeitar a vida – nem que sejam as luzes da rede elétrica ou de um improvável cardume de estrelas. Uma rua sem arte é jardim sem girassol.
As ruas escorrem material poético, e a voz de Silvio Valentin Liorbano, em “Um Canto para Piaf”, vem nos lembrar disso. Transcende, na verdade, uma lembrança: é um manifesto, uma insistência em perceber as pequenas (grandes) coisas, poética que acompanha o autor desde “Olhos de Engolir Horizonte” (Patuá, 2020). Em “Um Canto para Piaf”, que gostei muito de apelidar, pelas próprias palavras do autor, como “Metade do que importa, ou o inteiro de tudo(?)”, é possível perceber o caminho de um eu-lírico que, durante andanças pelas ruas do Brasil e de Portugal, insere os olhos dos que o leem na vida ambígua do artista de rua – entre o eco global da possibilidade de valorização, ou que sejam breves palmas, ao oco da invisibilidade, ou pior, de um estômago vazio. “O menino que carregava água na peneira”, de Manoel de Barros, lembra-me muito a poética de Liorbano, uma vez que, enquanto aquele insistia em carregar água na peneira, transformando pelas palavras pedras em flores, Sílvio vem encher de asas vazios de asfalto, ou como em “Galos e Poetas”, “despertar o homem”; e posso contrariar nosso eu-lírico – esse despertar não é em vão. Edith Piaf, consagrada cantora francesa, veio do asfalto, criou asas e começou seus primeiros pios de pardal numa esquina qualquer de Paris. Edith foi vista, ouvida, percebida e merece ser lembrada. No poema que dá nome à nova obra poética de Sílvio Liorbano, o poeta nos diz: “Faz frio na rua deserta do estômago/Mas a menina canta, canta, canta…” e essa menina, que foi um dia Piaf, é um pouco de cada artista que insiste ou resiste. A obra de Liorbano é uma melodia necessária à contemporaneidade e rege um coro de vozes cotidianamente silenciadas – Pedro, Jonathan, Jhon, meninas e meninos sem nome: mamulengueiros que carregam a fagulha da criatividade nas costas “cabem” no poema, como Gullar fazia caber na poesia o preço do arroz e o preço do feijão. Sílvio escuta a poesia dos artistas de rua e leva o leitor ao encontro dela: poesia mambembe, simplesmente poesia: erma, invisível, à espera – “metade do que importa ou inteiro de tudo”.
Amanda Kristensen de Camargo
Doutora em Letras, escritora das obras “Pelas Frestas” (Patuá, 2022) e “Entre-Terras” (2020), leitora e amiga.
