Uma estreia que não pede licença — invade. Assim chega Bichos cegos tateiam feridas, livro de contos de Rafael Godoy, publicado pela Mondru Editora. A obra mergulha sem piedade em experiências de dor, violência, desejo e abandono, sempre a partir de vozes marginalizadas que se colocam em cena com potência. É literatura que arranha por dentro, e que faz do incômodo uma ferramenta estética e política.
Dividido em três partes — “Os bichos”, “A cegueira” e “As feridas” —, o livro estrutura-se como uma trilogia do impacto. Cada conto, em linguagem direta, oral e desobediente, explora a crueza do cotidiano de quem vive à margem, com destaque para corpos dissidentes, identidades feridas e existências que resistem. Há humor, sim, mas o sarcasmo é ácido; há lirismo, mas ele sangra. A cada página, uma porrada — como aponta Marcelino Freire, que afirma: “Todos os contos deste livro tipo: aquele ensinamento de Júlio Cortázar. Porrada!”.
Rafael Godoy nasceu em Recife, em 1995. Historiador, designer e diretor de arte no estúdio PUYA!, é um autor que transita com naturalidade entre o texto e a imagem, entre a crítica e a provocação. Em sua estreia na literatura, demonstra domínio de ritmo, escuta e montagem, revelando um universo estético próprio. Sua escrita se ancora na oralidade — personagens falam como vivem: com raiva, tesão, fome, ternura e medo.
O título do livro já anuncia o tom: Bichos cegos tateiam feridas aponta para uma condição de desamparo e brutalidade, mas também para a possibilidade de contato, mesmo que às cegas, com aquilo que pulsa e dói. Os contos são protagonizados por freiras em crise de fé, travestis violentadas, amores homoafetivos marcados por obsessão, moradores de rua em delírio e mulheres que sangram ou são sangradas. A violência não é um tema — é o solo onde tudo se planta.
Literariamente, a inovação está na recusa de embelezar a miséria. Ao contrário de narrativas que buscam redenção ou piedade, Godoy escolhe escancarar a falência da linguagem institucional e da lógica social. Seu texto quebra o verniz e lança o leitor diretamente no barro, no cu, na coxa, no sangue. E é exatamente aí que reside sua força: na coragem de não fingir que existe conforto.
Com essa estreia impactante, Rafael Godoy inscreve seu nome entre os autores contemporâneos que compreendem a literatura como um espaço de risco. Bichos cegos tateiam feridas não quer apenas contar histórias — quer ferir quem lê. E nesse gesto, talvez paradoxalmente, promove a escuta dos que geralmente não têm voz. Um livro que lateja, como as feridas que insistimos em esconder.
Sobre a obra
- Gênero
- Contos
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 104
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 29/07/2025
- ISBN
- 978-65-6042-159-2
- Preço de capa
- R$ 59,90
Em Bichos cegos tateiam feridas, Rafael Godoy dá voz a personagens que habitam os limites — da cidade, do corpo, do afeto e da linguagem. Com narrativas marcadas pela oralidade, o livro reúne contos que expõem com crueza e lirismo os embates de quem vive à margem, onde a violência cotidiana se mistura ao desejo, à saudade e à esperança. Entre sarcasmo e dor, emerge uma literatura visceral, que incomoda para fazer pensar.
Citações
“— Pois eu tô precisando é de um remédio pra deixar de amar. Que vidinha desgraçada essa de sentir dor no cu, no peito, na cabeça.Tem dia que eu não sei nem como eu me levanto. Como é que uma pessoa pode causar isso na outra? Fico me perguntando se alguém já sofreu assim por mim. —Provavelmente. A gente vive pra se matar, parece um monte de formiguinha em fileira, uma mordendo a bunda da outra. Dor é sinal de vida, porque só não sente nada quem já tá morto. Por isso a gente vive nesse ciclo, nessa sina, na engrenagem que faz o mundo girar.” Do conto "Dor de viado". “Tô pensando o dia todo em sair desse convento, partir de vez dessa vida santa que carrego só na mentira – que de santa eu não tenho nada. Mandar todo mundo aqui pastar, ver a cara de surpresa das irmãs, a raiva do Padre Heleno, correr com o hábito balançando no meio da rua. E o rabo, Francisco, eu quero balançar na tua cara, pra tu ver que, debaixo dessa roupa toda, ainda tem uma belezura todinha pra tu matar tua vontade e a minha.” Do conto "Eu peco pelas pernas". “Quando eu bati minha cabeça na cerâmica partida do boxe, senti o mundo mais forte. O sangue quente escorreu até a minha nuca, e vi o chão se tornar um mar de morangos machucados; pensei que partes do meu cérebro corriam pelo ralo. [...] Era um banho qualquer no meio do dia pra ver se a minha agonia se aliviava sozinha, o peso farto e gorduroso da solidão em meu apartamento milimetricamente organizado. Uma sala, uma cozinha, um banheiro e um quarto; e eu, no meio do cubículo, pressionado. Era o suficiente pra mim e pra Rosa, mas quando ela rompeu as janelas querendo conhecer o chão da Aurora, eu me senti apertado aqui. Tentou se afogar no Capibaribe e só conheceu concreto, e eu virei um deserto de água doce.” Do conto "Antes que meu corpo esfrie".”
Sobre a autoria
Rafael Godoy
@rafaelcgodoyRafael Godoy nasceu em 1995 e é natural da cidade do Recife. Historiador e designer, atua como diretor de arte no estúdio PUYA!, do qual é co-fundador. Além de se dedicar à escrita, o autor se expressa de forma gráfica com narrativas poéticas e bem humoradas, constituindo seu universo criativo na conexão entre literatura e design. Bichos cegos tateiam feridas é seu livro de estreia.
Ficha técnica
| Autoria | Rafael Godoy | @rafaelcgodoy |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Khálysto Soares | @khalysto.soares |
| Revisão | Letícia M. Zambon |
Contato
Imprensa: imprensa@mondru.com
Site: mondru.com/livros/bichos-cegos-tateiam-feridas/