A nova obra de Caio Martim, publicada pela Mondru Editora, intitulada Dia Útil, apresenta-se como um documento crítico e lírico da vida contemporânea, explorando a exaustiva batalha entre a produtividade exigida pelo mercado e o impulso irreprimível da criação. O livro é o resultado da fusão de mais de um ano de reflexões (322 dias) em um único dia de trabalho, e nasceu do conflito fundamental entre o descanso e a obrigatoriedade, um embate que o autor define como a tensão entre a razão e a poesia. Martim convida o leitor a buscar, junto com ele, os mecanismos que governam a rotina e a identificar as poucas brechas disponíveis nas rígidas estruturas da vida adulta.
A estrutura da obra é uma de suas maiores inovações, sendo rigidamente dividida nas seções CORPO_ATIVO e POEMÁTICA. A primeira metade submerge o leitor no universo corporativo de forma satírica e metalinguística. Utilizando o jargão de planilhas e fórmulas (como funções de busca e condicionais), o autor transforma a existência em um dado passível de cálculo. Ele demonstra como a tentativa de encontrar a humanidade no ambiente de trabalho resulta em uma resposta negativa ou falsa na célula da vida profissional.
Essa crítica é intensificada pela representação sombria do cotidiano laboral. Martim descreve o escritório como uma savana com elementos da cultura americana e francesa, onde os indivíduos são peças em um campo de extermínio, esperando a sirene da desesperança. A linguagem econômica é empregada para expor o custo humano da alta performance: o autor menciona que o suor do trabalhador gera lucratividades voláteis apenas para os investidores, enquanto seu próprio resultado corporativo (KPI) inflaciona seu retorno sobre o investimento (ROI), que, por sua vez, carrega o odor de álcool barato. É um ataque direto a um modo de pensar ultrapassado que se move conforme as curvas da bolsa, mas que deixa o capital humano faminto e sem arte.
Em contraste, a seção POEMÁTICA é o caminho escolhido para a liberdade, representando a jornada do que é inútil para o que é essencial, navegando entre o lucro e o desespero existencial. É neste espaço que o autor explora o desejo profundo, simbolizado pelo "quero-quero", e o medo da poesia, o desespero de ter que falar. A dor de perceber a própria miséria e impotência é sintetizada em um neologismo criado na obra: Líthost, um sentimento experimentado por quem vive no limbo das promessas nunca cumpridas.
A narrativa é costurada pela metáfora do muro, que funciona como a grande fronteira entre as duas vidas. Na porção produtiva, o muro é um limite proibido, um labirinto rachado que esconde o desejo por um jardim de certezas. Na porção poética, contudo, o muro se torna permissivo, convidando à travessia para se alimentar da esperança e respirar um ar mais leve. A jornada do autor é descrita como um círculo anti-heroico, uma trilha que busca o triunfo, não no sucesso convencional, mas na conquista de sua própria felicidade.
Caio Martim assume uma voz metalinguística e auto-confessional, chegando a introduzir notas de rodapé irônicas e confessionais para se desculpar por existir e pela própria dualidade da escrita. O livro é um investimento arriscado que utiliza referências que vão da literatura clássica (Lygia Fagundes Telles) à cultura pop (Lana Del Rey, Lady Gaga), servindo como uma autocrítica complexa do escritor na contemporaneidade. Ao transformar jargões corporativos em arte, Dia Útil questiona o valor real das grandezas contáveis e especula se o último poema do autor não será, afinal, o silêncio.
Sobre a obra
- Gênero
- Poesia
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 112
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 25/11/2025
- ISBN
- 978-65-6042-218-6
- Preço de capa
- R$ 59,90
Entre fórmulas de Excel e versos estruturados, "dia útil" é um mergulho poético e brutal na simbiose entre a rotina corporativa e a urgência da criação. Este livro híbrido e experimental costura as experiências de um eu-lírico múltiplo, num cotidiano diluído entre crachás, deadlines e a resistência-teimosia de quem insiste em escrever.
No campo de batalha do dia útil, o eu-lírico reflete sobre a erosão dos sonhos e o peso das estruturas que domesticam a subjetividade. Em paralelo, explora uma linguagem anticonvencional que desafia as formas clássicas e performa uma revolta-resignada contra a produtividade imposta, o apagamento da arte e o esvaziamento do ser.
"dia útil" é um livro sobre o cansaço contemporâneo, a violência da normalidade e a tentativa insistente de se manter vivo e criativo no coração de uma sociedade que celebra o capital, mas ignora a poesia. É um convite à insubordinação estética e existencial: uma travessia entre o muro da rotina e o campo aberto do delírio.
Citações
“o pátio da minha alma é cheio de quero-queros meus dedos são esporões espantados pelo mundo- -cerqueiro meu medo é fuga do ninho antes de saber piar meu mundo é se salvar nos galhos-falhos da selva-paulistana”
Sobre a autoria
Caio Martim
Caio Martim é turismólogo e poeta, vivendo em São Paulo. Escreve entre rodapés de planilhas e margens de blocos de notas, na fronteira entre o universo corporativo e a escrita poética híbrida. Formado em Lazer e Turismo pela Universidade de São Paulo, achou que sempre seria só um autor-de-gaveta — mas vem vencendo a timidez de gritar seus silêncios-escritos: dia útil é seu livro de estreia.
Ficha técnica
| Autoria | Caio Martim | |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Augusto Oliveira | |
| Revisão | Matheus Mitre | @mmitretayar |
Contato
Imprensa: imprensa@mondru.com
Site: mondru.com/livros/dia-util/