"Do instante abandonado à própria natureza", de Gregório Reis, convida o leitor a uma imersão poética profunda e reflexiva sobre a natureza do instante em contraposição à aceleração frenética do mundo contemporâneo. A obra se apresenta como um desafio àquilo que o autor identifica como uma "ontologia da aceleração", onde o instante se torna um mero momento de exploração do superficial e do vazio, conduzindo a um cenário de potencial catástrofe. Em resposta a essa dinâmica, Reis propõe uma experiência estética que se configura como uma reflexão político-subjetiva, buscando produzir percepções poéticas singulares sobre o instante nas atuais circunstâncias históricas.
O livro se estabelece na fronteira entre a poesia e a filosofia, onde os poemas não apenas expressam sentimentos, mas também pensam à sua própria maneira, enquanto a filosofia se torna um "laboratório da poesia". Os leitores encontrarão uma experimentação de escrita e pensamento que intencionalmente esgarça e tensiona as linhas demarcatórias entre essas duas áreas da criação artística. "Do instante abandonado à própria natureza" emerge, assim, como a expressão de um combate contra a rapidez e a imediatez, traduzindo-se numa poética assumidamente "antiaceleracionista".
No que tange ao estilo, a poesia de Gregório Reis caracteriza-se por sua natureza experimental, marcada pela busca da intensidade do pensamento poético através de "fraturas de sentido e significantes", "aporias" e "imagens oníricas". O autor se propõe a "macerar o signo até abrir-se lá onde se escuta a matéria bruta do silêncio", a "pilar a erva dura do sentido" e "arrancar o aroma das palavras", numa tentativa de apreender a essência fugidia do instante. Essa abordagem resulta numa linguagem que se dobra sobre si mesma, transitando entre o surreal e o absurdo, com o objetivo de alcançar "uma palavra irrespirável".
A obra também revela as influências que moldam a poética de Gregório Reis. O autor presta homenagem à tradição de poetas paraenses como Max Martins e Vicente Franz Cecim, cujos trabalhos frequentemente incorporam formas fragmentárias de reflexão filosófica com uma semântica sutil e telúrica. Adicionalmente, a leitura de escrituras sagradas hindus, como a Bhagavad-gītā e o Śrīmad-Bhāgavatam, infunde nos poemas uma "verve espiritual, mística e meditativa". Essa confluência de referências contribui para um universo poético rico e multifacetado.
O cerne da proposta poética de Reis reside na meditação sobre o instante, descrito como a "dobra do real enquanto raro". Longe de ser apenas um lapso temporal, o instante é concebido como algo que se revela "a golpes de lampejo", exigindo tanto a "paciência contemplativa e ritmada do macerar" quanto o "ataque súbito e impetuoso" da intuição. Esse "assalto ao instante das coisas" visa transmutar a percepção, fraturando o ordinário para liberar a pureza do momento.
Em suma, a obra de Gregório Reis oferece ao leitor uma experiência de "pensamento poético na dobra do real", convidando-o a desacelerar e a contemplar a riqueza contida em cada instante. Ao transitar por versos que ora maceram o sentido, ora o lançam em paradoxos e imagens oníricas, o livro se configura como um esforço de tradução de uma intensa experiência meditativa, conduzindo o leitor por um caminho de dissolução das formas em busca de um reencontro essencial com o próprio ser no presente fugaz.
Sobre a obra
- Gênero
- Poesia
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 192
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 16/05/2025
- ISBN
- 978-65-6042-189-9
- Preço de capa
- R$ 59,90
Embora a filosofia e a crítica literária já tenham debatido sobre a natureza do instante como uma categoria para pensar o tempo ou como uma das matérias de reflexão sobre a ars poetica, o livro lança-se ao desafio: diante de uma ontologia da aceleração, que torna o instante um momento de mineração do supérfluo e do vazio em direção à catástrofe, é possível pensar poeticamente o instante abandonado à sua própria natureza? Os poemas do livro " Do instante abandonado à propria natureza" são maneiras de confrontar uma ontologia da aceleração a partir de uma experiência estética como reflexão político-subjetiva e produção de percepções poéticas sobre o instante nas circunstâncias históricas atuais. Trata-se de pensar poeticamente o instante quando a filosofia se faz laboratório da poesia e quando os poemas também pensam à sua própria maneira. Os leitores encontrarão uma experimentação de escrita e pensamento, de filosofia e literatura, que esgarça e tensiona as fronteiras dessas zonas de pressuposição recíproca da criação artística. O livro é a expressão de um combate contra a rapidez, a imediatez, é a tradução de uma poética antiaceleracionista.
Citações
“Toda língua lentamente herda a maceração de séculos no pilão do instante. Quem macera a língua, a golpes de lampejo, decerto tem um pulso metamorfo, tem uma palavra moída junto às nascentes, um abandono pungente como um rosto desfeito em túmulo anônimo.”
“Dentro do mato bravo onde só há sombras e vilipêndio, há também uma flor intempestiva, de difícil miramento. Para vê-la, é preciso um corte rente à vida, incisivo. Corte que separe do pecíolo da paciência a nervura do silêncio, as folhas do efêmero para o chá da lenta inocência.”
Sobre a autoria
Gregório Reis
@hari_poemasNatural de Belém-PA, nascido em outubro de 1982, Gregório Reis escreve poemas, contos, letras de músicas há mais de 20 anos. Atua como professor universitário do Instituto Federal de Educação e Tecnologia do Pará. Tem formação em pedagogia, especialização em movimentos sociais, mestrado em educação e realiza doutoramento na UNICAMP, na linha linguagem e arte em educação. Publica poemas em sua página pessoal @gregorioreis_poemas no instagram. É fundador, editor e colaborador da revista literária virtual Marahu @marahu_revistaliteraria. Possui poemas visuais publicados na Revista Bufo, revista de poesia visual e poesia experimental. Já fez trabalhos com produção de rádio novelas e educação popular.
Ficha técnica
| Autoria | Gregório Reis | @hari_poemas |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Khálysto Soares | @khalysto.soares |
| Revisão | Leticia M. Zambon |
Contato
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