"Santa Tocaia", a obra de Raí Angelo, publicada pela Mondru Editora, emerge como um convite contundente para desvendar as camadas profundas de uma história onde o martírio se entrelaça com a vingança, e a fé popular desafia as estruturas de poder. O livro mergulha na figura de Padre Máximo, um sacerdote que, após ser "martirizado por um coronel do Cariri", é canonizado pelo povo como o "padroeiro das tocaias" e o "santo da vingança". Esta narrativa não apenas expõe a dualidade da "cruz e chumbo" que define o protagonista, mas também ressoa a complexa busca por justiça em um sertão marcado pela violência e pelo coronelismo.
A inovação narrativa reside na forma como Raí Angelo, através da perspectiva de um jornalista investigativo, se propõe a desvendar a "crônica" de Padre Máximo. O leitor é conduzido por uma pesquisa que vai além dos registros oficiais e "mentiras", priorizando o "testemunho direto" de figuras como Diassis do Santo, o "hagiógrafo de São Luiz Máximo". Este método confere à obra uma qualidade de reportagem aprofundada, onde o "jornalismo no Ceará já nascera como perigoso empreendimento", mas fundamental para "despintar o inferno que dizem sê-la por aí".
A obra destaca a complexidade de Padre Máximo, que, apesar de sacerdote, manejou armas como a "Winchester 1873" e a "Luger 1906", e cuja história é um reflexo das "injustiças sociais e políticas" que assolavam o sertão cearense. A romaria de Arribaçã, onde romeiros "depositam balas sobre o túmulo do padre", é um fenômeno que simboliza a "luta por justiça" popular e a busca por "desforra" quando a "lei dos senhores da terra" e a "justiça dos homens" falham. O livro questiona a moralidade da violência ("vingança não é justiça"), mas oferece uma visão profunda da "percepção subjetiva" daqueles que, "incapazes de seguir adiante", encontram em Máximo a "possibilidade de comungar" da "vingança" que "Deus" supostamente detinha.
O cenário do sertão cearense é um personagem à parte, com suas "imensas campinas que se dilatam por horizontes infindos", mas também como palco de "contendas políticas", "tocaias" e "estranhos milagres". A narrativa tece um painel detalhado das mazelas sociais, como a seca de 1915 que levou à criação de "campos de concentração para os flagelados", o "coronelismo", o preconceito racial e a impunidade. "Santa Tocaia" desmantela as "versões oficiosas" da história, expondo a "canalhice e o oportunismo" por trás das "abastanças" e a "repressão" cultural e social.
"Santa Tocaia" é uma obra de notável qualidade literária e histórica, que se distingue pela coragem de explorar temas delicados e pela sua rica linguagem. Ao desafiar as versões consolidadas da história e da fé, oferece um "documento" que permite aos leitores uma compreensão mais "profunda, bonita e adaptada" da cultura sertaneja. A obra é um convite para refletir sobre as complexas relações entre poder, fé e justiça, e como, para alguns, "santo mesmo só existe enrolado em quatro metros de chita e a sete palmos do chão".
Sobre a obra
- Gênero
- Romance
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 280
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 13/08/2025
- ISBN
- 978-65-6042-236-0
- Preço de capa
- R$ 69,90
Em 1955, um jornalista embarcou na estação central de Fortaleza e partiu para o sul do estado, a fim de apurar os rumores de uma nova romaria. Corriam notícias de um povoado nos limites do Cariri que atraía uma multidão até o seu cemitério, onde estava enterrado o corpo de um padre, a quem adoravam como um santo. O padroeiro da vingança, São Luiz Máximo de Arribaçã. Em 1926, o padre foi martirizado na praça matriz do distrito, após pelejar sozinho contra a cabroeira do coronel local, numa tocaia armada da torre da igreja. Desde então, uma procissão de pistoleiros dirige-se anualmente até Arribaçã, para apanhar as balas depositadas sobre o túmulo do padre, pontando-as como patuás, que lhe garantirão sua vingança. Uma multidão de crédulos sertanejos a quem as fronteiras pouco ou nada importam. Pois de onde quer que partam, o que impera é a violência e o mandonismo. 1898, Luiz Máximo, filho de um coronel do Vale do Jaguaribe, criado entre os jagunços de seu pai, vê-se obrigado a cumprir a promessa de sua mãe doente. Devendo ordenar-se padre, Luiz parte para Fortaleza e antes de iniciar seus estudos no seminário, erra em companhia de boêmios e vagabundos da capital. Já ordenado, assume uma paróquia num povoado no sul do estado. Numa zona de arbítrio e violência onde encontra sua paixão e sua peleja.
Citações
“— Como ia dizendo, doutor, poderia muito bem começar no meio-fim, atalhar ao que interessa. Quando achegou por aqui, no ano de 1925, um cavaleiro apeado numa mula alta e acastanhada, em trote tardo arrebanhando olhares. Todo trajado de preto, das botas ao chapéu, tal qual um anum. Dava aparências de artista de faroeste do cine Majestik, não fosse o alvo quadrado no gogó a denunciar-lhe a ocupação. “Virge Maria!” Arrancava exclamações das comadres pelas calçadas. “Mas esse é o padre? Benza Deus!” Faziam o sinal da cruz. Se assim procedesse talvez até agradasse mais o doutor ou os seus leitores, mas restaria muito por explicar. Regra se põe na boca do saco, então digo logo: uma coisa é o entendível, outra é o que entretém. Careço de começar de trás, recorrer ao uso vulgar e principiar lá do nascimento, sendo a morte e martírio coisa já sabida. Corri à contracorrente a vida todinha do padre, da foz fui ao olho d’água. O grande eito apurável aonde vou me deter, pois da desembocadura pra frente é água que não se bebe, sal do divino.”
Sobre a autoria
Raí Angelo
@_rayangeloRaí Angelo nasceu em 1992 em Fortaleza. Passou pela Universidade Federal do Ceará nos cursos de Licenciatura em Música e História. Como músico, foi co-autor das letras e desenvolveu o conceito do álbum "The Devil to Pay in The Backlands" da banda cearense Jack The Joker, baseado na obra de Guimarães Rosa e na literatura cearense. Cursa hoje Ciências da Comunicação na Universidade do Algarve em Portugal, onde vive como imigrante desde 2023, e se dedica à escrita.
Ficha técnica
| Autoria | Raí Angelo | @_rayangelo |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Augusto Oliveira | |
| Revisão | Matheus Mitre | @mmitretayar |
Contato
Imprensa: imprensa@mondru.com
Site: mondru.com/livros/santa-tocaia/