Marcel Vieira apresenta ao público seu mais novo romance, "Sutura", uma obra instigante que mergulha nas profundezas da psique humana e nas intrincadas dinâmicas familiares. O título, por si só, já evoca a ideia de remendar o que foi rasgado, mas também de revelar as cicatrizes de um passado que se recusa a ser esquecido. O romance convida o leitor a uma jornada de descoberta e reflexão sobre os laços que nos unem e as verdades que nos aprisionam, utilizando a história da família Dias Ferreira como pano de fundo para uma narrativa poderosa e emocionalmente densa.
A narrativa de "Sutura" se destaca por sua estrutura não linear e fragmentada, espelhando a própria natureza da memória e do trauma. Através do fluxo de consciência de Miguel, o filho caçula, o leitor é transportado entre lembranças de uma infância aparentemente comum e os ecos de um evento catastrófico que despedaçou a estabilidade familiar. O autor emprega uma linguagem poética e evocativa, que permeia a descrição de ambientes e emoções, transformando detalhes cotidianos em elementos de profunda ressonância para a trama.
A Casa Dias Ferreira, outrora um próspero ateliê de costura e loja de tecidos em João Pessoa, fundado pela matriarca Nádia, serve como um microcosmo do declínio familiar. A doença de Nádia, a ausência da filha Mayara e as responsabilidades precoces de Miguel refletem as sequelas de um passado doloroso. O romance explora com sensibilidade as complexidades da família, desde as ambições da mãe e a quietude do pai, Nilson, até as personalidades distintas dos filhos, cada um lidando com a desintegração de seu mundo à sua maneira.
No cerne da trama, jaz um segredo avassalador: a descoberta por Miguel do envolvimento de seu irmão Mércio com ideologias extremistas neonazistas e sua suposta ligação com um crime brutal – a queima de um morador de rua. Essa "verdade" captura Miguel, lançando-o em um profundo dilema moral e impulsionando-o a tomar uma decisão drástica. O peso do remorso, da culpa e da responsabilidade pela prisão do irmão passa a moldar a existência de Miguel, transformando sua adolescência e sua vida adulta em uma vigília constante.
A obra questiona a natureza da justiça e as marcas que as escolhas impõem, tanto individualmente quanto sobre toda uma linhagem. Com o retorno de Mércio da prisão em regime condicional, a família tenta, de forma forçada e muitas vezes ingênua, "remendar" as feridas abertas, mas a tensão entre os irmãos é palpável. A obra explora a difícil convivência com o passado e a incerteza sobre se o perdão é possível, ou se o ódio latente apenas foi alimentado pelos anos de reclusão.
"Sutura" é uma profunda investigação sobre as cicatrizes que a vida nos impõe e os caminhos tortuosos que a memória percorre. Com uma narrativa envolvente e personagens complexos, Marcel Vieira oferece uma reflexão contundente sobre as consequências de nossas escolhas, a fragilidade da família e a constante busca por um senso de justiça, mesmo quando esta se mostra imperfeita. É uma obra que prende o leitor do início ao fim, convidando-o a desvendar os mistérios e as camadas de uma história que ecoa a própria condição humana, marcada por traumas e pela esperança de, um dia, encontrar a cura.
Sobre a obra
- Gênero
- Romance
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 144
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 03/09/2025
- ISBN
- 978-65-6042-243-8
- Preço de capa
- R$ 59,90
Miguel é um garoto tímido, desengonçado, em meio às agruras da adolescência. Certo dia, ele acha um fanzine no quarto de Mércio, seu irmão mais velho, e passa a suspeitar que ele seja neonazista. Quando um morador de rua é incendiado por skinheads numa praça no centro da cidade, Miguel acha que Mércio esteja envolvido no crime e faz uma denúncia anônima. Mesmo jurando inocência, Mércio é condenado a uma longa pena. A família desmorona e Miguel se torna o responsável por cuidar de seus pais agora adoecidos. Passam-se então 20 anos. Mércio sai da prisão e volta a morar com a família, o que instila em Miguel o medo de que seu irmão desconfie de quem fez a denúncia anônima e possa estar agora buscando vingança. A tensão cresce até que Mércio exige a ajuda de Miguel para matar um ex-colega, que ele suspeita ser o responsável por sua prisão. Agora, enquanto busca a própria sobrevivência, Miguel se depara com a difícil tarefa de enfim fazer justiça.
Citações
“Daquela época, por exemplo, três coisas nunca saem da cabeça de Miguel: a vontade de ter comido Suzana, o remorso pela prisão de Mércio e a certeza de que, apesar de tudo, ele fez a coisa certa.”
“Mas aí botaram fogo em um morador de rua na praça Antenor Navarro e Miguel percebeu, como quem cai e nunca escapa do abismo, que estaria para sempre refém da verdade – dessa verdade que lhe tocou uma única vez e lhe tornou, para sempre, a sua estátua.”
“A piedade que sentia da situação de Mércio era então contraposta à memória do crime, e na sua cabeça Miguel não conseguia separar a compaixão pela dor do irmão do sentimento de justiça. Do triunfo contra a impunidade. Da certeza de ter, ele sim, feito a coisa certa.”
“Enquanto isso, Miguel viveu todo esse tempo como o tempo deve ser vivido, acordando de manhã, trabalhando durante o dia e sofrendo para dormir à noite, sem, no entanto, se afastar da sombra do irmão ausente, da memória de um delito que, se não poderia ser reparado, deveria então ser esquecido. Era sua responsabilidade. Ora, era sua, a responsabilidade. Miguel sabia disso mais qualquer um.”
“Mércio pede enfim a palavra. Um tanto desengonçado, ele se levanta e pigarreia antes de começar a falar. Por muitos motivos, ele é uma pessoa quase irreconhecível hoje. Seu corpo está acima do peso, os cabelos estão curtos e bem aparados, tatuagens monocromáticas estampam os braços e as pernas. (...) Agora, porém, ele se levanta para falar e parece incapaz de articular com clareza o que quer dizer. No seu canto, Miguel cruza os braços e observa o irmão tartamudear palavras quase desconexas, falando ora de perdão e recomeço, ora de traição e sacrifício.”
Sobre a autoria
Marcel Vieira
@marcelvieirabsMarcel Vieira é professor, pesquisador, escritor, roteirista e diretor de cinema. Ensina Roteiro e Dramaturgia no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Paraíba. Publicou livros, capítulos e artigos científicos no campo de estudos do cinema e do audiovisual. É autor do romance "Camaradas" (Ed. Patuá) e da coletânea de poemas "um abismo quase" (Ed. Reformatório), vencedora do Prêmio Maraã de Poesia. Escreveu e dirigiu o filme "Revanche" (2024), seu primeiro longa-metragem de ficção.
Ficha técnica
| Autoria | Marcel Vieira | @marcelvieirabs |
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| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Khálysto Soares | @khalysto.soares |
| Revisão | Lizandra Serafim |
Contato
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