Apresentamos com entusiasmo "Traduzo poemas alheios", a aguardada obra de Paula Nishizima, que mergulha nas complexidades e encantos do universo da tradução poética. Lançado pela Mondru Editora, este livro vai muito além de uma simples coletânea de versos, oferecendo uma visão íntima e profunda do processo tradutório. Nishizima convida o leitor a experimentar a tradução como uma relação viva e pessoal, onde "a gente lava louça olhando de rabo de olho para o poema, dorme com ele, acorda". É um convite para entender o trabalho que exige "profundo respeito" pelo texto original, mas também a coragem de "arriscar as escolhas" mais acertadas para o leitor em português.
A força da narrativa de "Traduzo poemas alheios" reside na transparência e na auto-reflexão da autora. Paula Nishizima não apenas traduz, mas também compartilha os fatores que moldam sua "leitura de mundo" e, consequentemente, seu modo de traduzir. Ela se posiciona como uma mulher cisgênera e "amarela" no Brasil, com seus privilégios e desafios, reconhecendo que sua existência e suas escolhas tradutórias são condicionadas por essas realidades. Essa honestidade cria uma "trama complexa de relações desiguais" e um "jogo de familiaridade e estranhamento" que é central para o ofício, pois traduzir é estar "entre mundos distintos", ocupando um "lugar instável, incerto e, com frequência, desconfortável". Sua máxima é clara: "eu faço mundos se encontrarem".
A obra se destaca por sua estrutura inovadora, organizando seus capítulos em torno de desafios específicos da tradução, transformando cada poema em uma aula prática. Desde a complexidade de encontrar rimas e replicar a sonoridade original, passando pela sensibilidade às particularidades culturais e históricas, até a tarefa de manter um registro próximo da oralidade ou lidar com a concisão da língua inglesa. A edição bilíngue é um diferencial, permitindo que o leitor compare o original com as traduções (e até múltiplas traduções). A inclusão de notas detalhadas após cada poema é uma ferramenta pedagógica valiosa, desvendando os dilemas e as soluções encontradas pela tradutora.
Nishizima oferece exemplos cativantes de seu trabalho. Em "A Crowded Trolley Car", ela narra o desafio quase cômico de rimar "Barba-Azul"; em "Learning to Read", discute a estrangeirização vs. domesticação de termos como "pot liquor" e a adaptação de nomes próprios. A tradução de "Tired as I can be", uma canção em inglês afro-americano (AAVE), ilustra a delicada questão de preservar as marcas linguísticas e a sonoridade, incorporando o "pretuguês" proposto por Lélia Gonzalez para evitar apagamentos ou caricaturas. Tais momentos revelam a constante negociação de prós e contras e a busca por um equilíbrio que mantenha a fluidez e o sentido.
Além disso, "Traduzo poemas alheios" abraça a colaboração e a multidisciplinaridade. O capítulo "Eu traduzo, nós traduzimos" apresenta a troca de ideias e as reflexões conjuntas com outros tradutores, como Everton Bernardes e Edivaldo Ferreira, e poemas de Igor dos Santos Mota, enriquecendo a perspectiva sobre o fazer tradutório. A obra se expande para além do texto, incluindo a tradução "entre linguagens" ao interpretar uma fotografia (Kyo Koike) e uma peça de arte japonesa (Tsuba) em poemas, e até uma instigante atividade com tradutores sobre o quadro "Desesperado" de Courbet, explorando o que faria um tradutor "desesperar". A autora também tece uma crítica pontual e reflexiva sobre o uso da Inteligência Artificial generativa, defendendo a importância do autoconhecimento no ofício.
"Traduzo poemas alheios" é, portanto, uma leitura essencial para estudantes e profissionais da tradução, bem como para amantes da poesia e todos aqueles interessados na linguagem e suas infinitas possibilidades. A obra de Paula Nishizima não só ilumina os bastidores de um ofício desafiador e apaixonante, mas também nos convida a uma reflexão mais ampla sobre como as palavras constroem e conectam mundos, provocando novas conversas e aprofundando nossa compreensão sobre a linguagem e sobre nós mesmos. É um testemunho da humanidade inerente à arte de traduzir, onde cada escolha é um ato de criação e mediação.
Sobre a obra
- Gênero
- Poesia
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 96
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 21/01/2026
- ISBN
- 978-65-6042-279-7
- Preço de capa
- R$ 69,90
“Traduzo poemas alheios”, de Paula Nishizima, é uma obra híbrida e profundamente reflexiva que transcende a simples coletânea de versos. O livro apresenta poemas traduzidos, muitos deles de autoras pouco conhecidas ou inéditas em português, em uma edição bilíngue que convida o leitor a comparar o original com a versão em português. Mais do que isso, a autora oferece notas e outros textos que detalham o processo tradutório, revelando as “dificuldades, reviravoltas e delícias” de se colocar “entre dois idiomas”. Nishizima compartilha sua perspectiva pessoal como mulher cisgênera e “amarela”, reconhecendo como sua identidade e leitura de mundo “condicionam” seu modo de traduzir e de “fazer mundos se encontrarem”. A obra aborda desafios específicos da tradução poética, como a busca por rimas e sonoridade, a atenção a questões culturais e a concisão da língua inglesa. Além disso, o livro inova ao explorar a tradução colaborativa, a tradução entre linguagens (interpretando imagens e obras de arte em poemas) e ao tecer uma crítica à Inteligência Artificial generativa, defendendo o autoconhecimento no ofício.
Citações
“Você já dormiu com um poema? Já acordou com ele no meio da noite e vocês ficaram conversando baixinho? Não é piada, não. E também não é frase de efeito para florear o texto de apresentação. É que traduzir poesia é assim: a gente lava louça olhando de rabo de olho para o poema, dorme com ele, acorda. Recita enquanto leva o lixo para fora. E, depois que termina de traduzir, deixa ele de molho por um tempo (essa parte é muito importante!) para que a gente só volte a se falar mais tarde, para edições e ajustes.”
“Pois bem, este livro é feito de poemas traduzidos, além de notas e outros textos pensados para dar uma ideia de como é o processo tradutório, quais as suas dificuldades, reviravoltas e delícias. Isso porque se colocar entre dois idiomas é uma operação delicada: exige demonstrar profundo respeito por quem escreveu o texto a ser traduzido, mas também arriscar as escolhas que nos pareçam mais acertadas pensando em quem vai lê-lo em português. E, quando mexemos com línguas, invariavelmente lidamos com tudo o que as informa. Importa quem fala, para quem, em que contexto, com qual intenção e ainda que efeito produziu. Importa também quem silenciou (ou foi silenciado) durante o processo. Importa como a memória, as relações e o território imprimem suas marcas no discurso.”
“Isso significa que agimos em meio ao atrito e à constante tensão entre mundos diferentes, negociando prós e contras o tempo todo. Mas o mais interessante é que cada pessoa lida com essas tensões de um jeito. Talvez porque a nossa percepção de um texto seja atravessada pelo modo como lemos o mundo e pelo jeito como ele nos lê de volta, com essas duas pontas em interação contínua. Estar entre mundos distintos é ocupar um lugar instável, incerto e, com frequência, desconfortável.”
“Podemos até dizer que, em certo sentido, toda tradução é provisória, seja porque amanhã ou depois pode vir alguém que vai fazer um trabalho melhor do que o seu (e acontece, viu?), seja porque as línguas mudam com o tempo: gírias envelhecem, novas palavras surgem, outras passam a ser empregadas num sentido diferente… O que existem são possibilidades de tradução e, com o tempo, a gente aprende que as noções de “certo” e “errado” são até bem relativas e maleáveis.”
“Eu sei, eu sei. Privilégio momentâneo. Mas se tem uma coisa que podemos aprender com o passado é que não existe opressão sem resistência, argumento sem contrapontos, narrativa sem contranarrativa. Quando me sinto assim, meio cansada e desesperançosa, gosto de me lembrar de quem eu sou: Que vozes eu consigo reconhecer? Que cheiros fazem eu me sentir em casa? Qual parte do meu corpo dói quando eu me deparo com um problema que não consigo resolver? Como era mesmo o trecho daquele livro que me fez chorar igual uma imbecil numa quarta-feira à tarde? Para isso, precisamos primeiro saber quem somos. Nesse quesito, suspeito que a IA generativa possa fazer bem pouco pela gente, mas isso é assunto para uma outra conversa.”
Sobre a autoria
Paula Nishizima
@paulanishizimaPaula Nishizima é jornalista, tradutora (inglês-português) e mestra em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Já traduziu obras de ficção e de não ficção para a DarkSide Books e trabalhou na preparação e revisão de títulos para a Edições Tempora. É autora do conto “O rio nos cabelos”, que integra a coletânea Olhares Empoderados Vol. 1, publicada pela Edições Tempora em 2021. Também integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia.
Ficha técnica
| Autoria | Paula Nishizima | @paulanishizima |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Khálysto Soares | @khalysto.soares |
| Revisão | Matheus Mitre | @mmitretayar |
Contato
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