Traduzo Poemas Alheios
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É que traduzir poesia é assim: a gente lava louça olhando de rabo de olho para o poema, dorme com ele, acorda.
Sobre o livro
“Traduzo poemas alheios”, de Paula Nishizima, é uma obra híbrida e profundamente reflexiva que transcende a simples coletânea de versos. O livro apresenta poemas traduzidos, muitos deles de autoras pouco conhecidas ou inéditas em português, em uma edição bilíngue que convida o leitor a comparar o original com a versão em português. Mais do que isso, a autora oferece notas e outros textos que detalham o processo tradutório, revelando as “dificuldades, reviravoltas e delícias” de se colocar “entre dois idiomas”. Nishizima compartilha sua perspectiva pessoal como mulher cisgênera e “amarela”, reconhecendo como sua identidade e leitura de mundo “condicionam” seu modo de traduzir e de “fazer mundos se encontrarem”. A obra aborda desafios específicos da tradução poética, como a busca por rimas e sonoridade, a atenção a questões culturais e a concisão da língua inglesa. Além disso, o livro inova ao explorar a tradução colaborativa, a tradução entre linguagens (interpretando imagens e obras de arte em poemas) e ao tecer uma crítica à Inteligência Artificial generativa, defendendo o autoconhecimento no ofício.
Por que publicamos
Poesia traduzida raramente mostra o trabalho por trás da página. Este livro mostra: reúne poemas em edição bilíngue, a maioria de autoras pouco ou nunca traduzidas no Brasil, e os acompanha de notas que revelam as escolhas, os impasses e os achados de quem os trouxe ao português.
Há ainda humor, colaboração com outros tradutores e tradução entre linguagens, como a de imagens em poemas. Para nós, é uma obra que amplia o que se entende por tradução e convida o leitor a comparar, discordar e ler com mais atenção.
“Você já dormiu com um poema? Já acordou com ele no meio da noite e vocês ficaram conversando baixinho? Não é piada, não. E também não é frase de efeito para florear o texto de apresentação. É que traduzir poesia é assim: a gente lava louça olhando de rabo de olho para o poema, dorme com ele, acorda. Recita enquanto leva o lixo para fora. E, depois que termina de traduzir, deixa ele de molho por um tempo (essa parte é muito importante!) para que a gente só volte a se falar mais tarde, para edições e ajustes.”
“Pois bem, este livro é feito de poemas traduzidos, além de notas e outros textos pensados para dar uma ideia de como é o processo tradutório, quais as suas dificuldades, reviravoltas e delícias. Isso porque se colocar entre dois idiomas é uma operação delicada: exige demonstrar profundo respeito por quem escreveu o texto a ser traduzido, mas também arriscar as escolhas que nos pareçam mais acertadas pensando em quem vai lê-lo em português. E, quando mexemos com línguas, invariavelmente lidamos com tudo o que as informa. Importa quem fala, para quem, em que contexto, com qual intenção e ainda que efeito produziu. Importa também quem silenciou (ou foi silenciado) durante o processo. Importa como a memória, as relações e o território imprimem suas marcas no discurso.”
“Isso significa que agimos em meio ao atrito e à constante tensão entre mundos diferentes, negociando prós e contras o tempo todo. Mas o mais interessante é que cada pessoa lida com essas tensões de um jeito. Talvez porque a nossa percepção de um texto seja atravessada pelo modo como lemos o mundo e pelo jeito como ele nos lê de volta, com essas duas pontas em interação contínua. Estar entre mundos distintos é ocupar um lugar instável, incerto e, com frequência, desconfortável.”
“Podemos até dizer que, em certo sentido, toda tradução é provisória, seja porque amanhã ou depois pode vir alguém que vai fazer um trabalho melhor do que o seu (e acontece, viu?), seja porque as línguas mudam com o tempo: gírias envelhecem, novas palavras surgem, outras passam a ser empregadas num sentido diferente… O que existem são possibilidades de tradução e, com o tempo, a gente aprende que as noções de “certo” e “errado” são até bem relativas e maleáveis.”

Paula Nishizima
Paula Nishizima é jornalista, tradutora (inglês-português) e mestra em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Já traduziu obras de ficção e de não ficção para a DarkSide Books e trabalhou na preparação e revisão de títulos para a Edições Tempora. É autora do conto “O rio nos cabelos”, que integra a coletânea Olhares Empoderados Vol. 1, publicada pela Edições Tempora em 2021. Também integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia.
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Mondru · 96 pages
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