"Branco tão Vazio", obra de César Valença, emerge como um lançamento literário instigante e essencial, prometendo uma experiência de leitura que transcende as convenções narrativas e mergulha profundamente na psique humana. Este romance não é apenas uma história; é um convite para desvendar as complexas camadas da mente de seu protagonista, Vicente, e questionar os limites entre a lucidez e a loucura, o real e o imaginado. Sua estrutura inovadora e a exploração de temas universais o posicionam como um título de destaque no panorama da literatura contemporânea brasileira.
A narrativa de "Branco tão Vazio" se constrói em torno de Vicente, um escritor em crise que se encontra em um estado de privação de sono por três dias, atormentado por um sol implacável que brilha até mesmo à noite. Confinado em seu apartamento, que ele passa a ver como uma "jaula", Vicente experimenta uma realidade distorcida, onde o calor é insuportável e baratas de "aço" parecem zombar dele. Sua esposa, Laura, está em uma viagem e não atende suas ligações, alimentando sua solidão e culpa por um relacionamento extraconjugal. Este cenário de isolamento e confusão serve como pano de fundo para uma exploração intensa da mente do personagem.
A inovação da obra reside na forma como a narrativa se desdobra, mesclando memórias, delírios e fragmentos de uma realidade subjetiva. O leitor é imerso na corrente de consciência de Vicente, testemunhando sua deterioração mental através de diálogos internos, telefonemas ambíguos com seu amigo Gabriel, e conversas surrealistas com o porteiro Lourenço. Há também a presença de "vozes" que o rodeiam, visões de chuva apenas na piscina, e a constante sensação de que "o sol está em cima da minha cabeça", elementos que contribuem para uma atmosfera de suspense psicológico e ambiguidade que prende o leitor.
A profundidade da narrativa é ampliada pela intertextualidade e pelas camadas de memória que permeiam a história. Vicente revisita seu passado, desde a morte de sua mãe e a ausência do pai, até a criação de seu livro mais vendido, "O Conto de Clara", que narra a história da "última mulher do mundo". Ele também se recorda do início de seu relacionamento com Laura em Paris, marcado pelo encontro diante da Vênus de Milo e por uma obra de arte "toda branco". Essas lembranças e criações ficcionais se entrelaçam com sua realidade presente, revelando as dores e vazios que moldaram sua existência e alimentaram sua melancolia, frequentemente associada à depressão.
"Branco tão Vazio" é uma proeza literária que demonstra a maestria de César Valença em construir uma trama complexa e multifacetada. O autor utiliza uma linguagem poética e crua para imergir o leitor no universo mental de Vicente, criando uma atmosfera que é ao mesmo tempo claustrofóbica e expansiva. A exploração de temas como a saúde mental, o abandono, a arte como fuga e a busca por significado em meio ao caos existencial torna a obra não apenas um livro para ser lido, mas para ser sentido e debatido.
Em suma, "Branco tão Vazio" é um convite irrecusável a uma viagem literária que desafia as expectativas e provoca reflexões profundas. Sua originalidade, a complexidade psicológica do protagonista e a reviravolta final garantem que o romance não apenas cative o público, mas também o leve a reconsiderar a própria natureza da percepção e da realidade. É uma obra que certamente deixará uma marca duradoura na memória dos leitores.
Sobre a obra
- Gênero
- Poesia
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 232
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 05/11/2025
- ISBN
- 978-65-6042-235-3
- Preço de capa
- R$ 59,90
Em “Branco tão Vazio”, César Valença convida o leitor a uma imersão profunda na mente de Vicente, um escritor que se vê aprisionado em seu apartamento após três dias sem dormir. Atormentado por um sol incansável que parece brilhar até mesmo à noite, e por um calor insuportável, Vicente luta para distinguir a realidade de suas crescentes alucinações, que incluem baratas de “aço” e chuva caindo apenas na piscina. Enquanto tenta lidar com a ausência de sua esposa Laura, que está em viagem e não o atende, e a culpa por um relacionamento extraconjugal, ele se vê em uma espiral de memórias e delírios, questionando a própria natureza de sua percepção e a sanidade de sua mente.
Citações
“Faz três dias que eu não durmo. Três dias que minha mulher não me atende. Três dias que ela foi pra porra daquela viagem. E não para de chover. Chuva do caralho. Dá pra ver a chuva batendo na água da piscina. Mas não tá chovendo lá fora. Lá fora não. Mas, na piscina aqui do prédio, tá. Deve ser coisa da minha cabeça. Deve ser porque eu não durmo. Faz três dias que eu não durmo. Faz três dias que faz sol. Até de noite faz sol. Só pode ser coisa da minha cabeça. Ou é esse calor que tá me deixando louco. Calor do caralho. Vou fazer um café.”
“Pego minha sandália rápido e arremesso na quina da parede. Gabriel toma um susto. – Que porra é essa, Vicente? Gabriel raramente fala palavrão. – Uma barata. Viu não? – Não. – Caralho, era gigante. Como não viu? Parecia um dinossauro. Mais uma, de novo. Essa porra desse apartamento tá cheio de barata. E são umas baratas de aço. Não morrem nem a pau, já tentei de tudo e elas voltam a aparecer. Já estou começando a suspeitar que é só uma barata mesmo. Que tá crescendo cada dia mais. E ela sempre consegue fugir, eu pisco e ela desaparece. Parece mágica. Gabriel ri. Eu fico puto de verdade. O café espera. A fumaça sobe. O cheiro envolve a sala. O clima se acalma. Eu me sento.”
“É claro que eu não vou lá embaixo. Nem com todo o vento do mundo. Não vou. Prefiro morrer de calor aqui. E nem deve tá tão longe disso. Amanhã vai sair no jornal. “Escritor morre de calor.” E Lorenzo vai ler. Vai ler e rir. Pronto. Deu certinho. Caralho. Puta que pariu. Que calor. Claro que eu não vou lá embaixo. E Lorenzo ainda matou um cara. Ainda tem isso. Ah, não. Foi um acidente. E o cara não morreu. Quer dizer. Ele não sabe. Mas não vou lá embaixo. Tenho que escrever. Não vou. Eu nem consigo sair de casa. Aqui é minha jaula. Aqui é onde eu estou preso. Eu sou um animal. Não. Eu sou um inseto. Uma barata.”
Sobre a autoria
César Valença
@cesarvalencaCésar Valença nasceu em Natal, Rio Grande do Norte em 1986. Se formou em Publicidade & Propaganda. Trabalha com design e ilustração. Tocou guitarra, gravou discos. Desenha, pinta. E agora, escreve. “Branco tão Vazio” é seu primeiro livro.
Ficha técnica
| Autoria | César Valença | @cesarvalenca |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Khálysto Soares | @khalysto.soares |
| Revisão | Matheus Mitre | @mmitretayar |
Contato
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