Branco tão Vazio
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E de amarga, basta a minha vida.
Sobre o livro
Em “Branco tão Vazio”, César Valença convida o leitor a uma imersão profunda na mente de Vicente, um escritor que se vê aprisionado em seu apartamento após três dias sem dormir. Atormentado por um sol incansável que parece brilhar até mesmo à noite, e por um calor insuportável, Vicente luta para distinguir a realidade de suas crescentes alucinações, que incluem baratas de “aço” e chuva caindo apenas na piscina. Enquanto tenta lidar com a ausência de sua esposa Laura, que está em viagem e não o atende, e a culpa por um relacionamento extraconjugal, ele se vê em uma espiral de memórias e delírios, questionando a própria natureza de sua percepção e a sanidade de sua mente.
linguagem forte; suicídio ou automutilação
Por que publicamos
Branco tão Vazio nos interessou pela precisão com que transforma um apartamento, um calor que não cede e três dias sem dormir em matéria literária. A prosa em frases curtas, quase versos, acompanha a mente de um escritor bloqueado e faz o leitor duvidar, junto com ele, do que vê e do que lembra.
Publicamos o livro por seu risco formal e por sua sensibilidade. Entre café, cinema, pintura e música, a narrativa trata de saudade, culpa e solidão sem pose. É a estreia de César Valença, uma voz que vale acompanhar.
“Faz três dias que eu não durmo. Três dias que minha mulher não me atende. Três dias que ela foi pra porra daquela viagem. E não para de chover. Chuva do caralho. Dá pra ver a chuva batendo na água da piscina. Mas não tá chovendo lá fora. Lá fora não. Mas, na piscina aqui do prédio, tá. Deve ser coisa da minha cabeça. Deve ser porque eu não durmo. Faz três dias que eu não durmo. Faz três dias que faz sol. Até de noite faz sol. Só pode ser coisa da minha cabeça. Ou é esse calor que tá me deixando louco. Calor do caralho. Vou fazer um café.”
“Pego minha sandália rápido e arremesso na quina da parede. Gabriel toma um susto. – Que porra é essa, Vicente? Gabriel raramente fala palavrão. – Uma barata. Viu não? – Não. – Caralho, era gigante. Como não viu? Parecia um dinossauro. Mais uma, de novo. Essa porra desse apartamento tá cheio de barata. E são umas baratas de aço. Não morrem nem a pau, já tentei de tudo e elas voltam a aparecer. Já estou começando a suspeitar que é só uma barata mesmo. Que tá crescendo cada dia mais. E ela sempre consegue fugir, eu pisco e ela desaparece. Parece mágica. Gabriel ri. Eu fico puto de verdade. O café espera. A fumaça sobe. O cheiro envolve a sala. O clima se acalma. Eu me sento.”
“É claro que eu não vou lá embaixo. Nem com todo o vento do mundo. Não vou. Prefiro morrer de calor aqui. E nem deve tá tão longe disso. Amanhã vai sair no jornal. “Escritor morre de calor.” E Lorenzo vai ler. Vai ler e rir. Pronto. Deu certinho. Caralho. Puta que pariu. Que calor. Claro que eu não vou lá embaixo. E Lorenzo ainda matou um cara. Ainda tem isso. Ah, não. Foi um acidente. E o cara não morreu. Quer dizer. Ele não sabe. Mas não vou lá embaixo. Tenho que escrever. Não vou. Eu nem consigo sair de casa. Aqui é minha jaula. Aqui é onde eu estou preso. Eu sou um animal. Não. Eu sou um inseto. Uma barata.”

César Valença
César Valença nasceu em Natal, Rio Grande do Norte em 1986. Se formou em Publicidade & Propaganda. Trabalha com design e ilustração. Tocou guitarra, gravou discos. Desenha, pinta. E agora, escreve. “Branco tão Vazio” é seu primeiro livro.
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Mondru · Poetry · 232 pages
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