O livro "Calvário" transporta o leitor para a atmosfera densa e multifacetada do morro da Anunciação e seus arredores. Este cenário, vibrante com a vida cotidiana de seus moradores, ritmada por canções e esperanças, também é permeado por uma constante sensação de desconfiança e a iminente expectativa de tragédias. É neste ambiente de contrastes acentuados que se desenvolve a narrativa, tecendo uma tapeçaria de relações humanas complexas e permeadas por espiritualidade e violência.
No coração desta comunidade reside um laço singular: a terna amizade entre o jovem Pedro e o Monsenhor João. Pedro, desde cedo, demonstra uma fascinação incomum pela capelinha de São João da Cruz e pela figura do padre que a frequenta. Apesar da proibição materna de visitar o local, o menino busca incessantemente oportunidades para se aproximar deste universo que lhe atrai. Essa curiosidade infantil e o encontro com o padre João durante a montagem do presépio marcam o início de uma ligação que se aprofunda com o tempo.
Pedro é um menino que cresce nas ruas do morro, conhecendo as mesmas brincadeiras e a mesma realidade de outras crianças, mas com uma busca interior por respostas sobre suas origens e o mundo ao seu redor. Sua vida familiar, em um pequeno barraco de lata na terceira parte do morro, é compartilhada com sua mãe, Mariana, e seu padrasto, Rafael.
Em contrapartida, Monsenhor João é uma figura central e controversa tanto no morro da Anunciação quanto no bairro da Betânia. Sua nomeação como monsenhor gera opiniões polarizadas, com alguns exaltando sua santidade e outros questionando sua reputação. Para Madalena, a pesquisadora que se aproxima da comunidade, Monsenhor João representa um enigma, um homem envolto em boatos e relatos fragmentados que não se encaixam facilmente. A complexidade de sua figura e seu impacto na comunidade local tornam-no um ponto focal da narrativa, suscitando a curiosidade sobre a verdade por trás das diversas percepções que o cercam.
A narrativa também acompanha a jornada de Madalena, uma pesquisadora que busca compreender a instituição da religiosidade na região. Suas tentativas iniciais de entrevistar Monsenhor João esbarram no silêncio do sacerdote e na reserva de Pedro. Além da relação central entre Pedro e Monsenhor João e da investigação de Madalena, o livro introduz outros personagens importantes, como Francisco, um amigo de Pedro que retorna ao morro com o desejo de promover mudanças, e Carla, uma jovem trabalhadora com laços com Madalena.
Em suma, "Calvário" convida o leitor a mergulhar em um universo rico em contrastes, onde a fé e a violência coexistem, e a esperança luta para florescer em meio às dificuldades. Através do olhar atento de seus personagens, o livro explora as complexidades das relações humanas, os mistérios da fé e as consequências dos eventos que marcam a vida da comunidade do morro da Anunciação, tecendo uma narrativa envolvente que questiona as verdades aparentes e busca desvendar as intenções ocultas dos corações.
Sobre a obra
- Gênero
- Romance
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 144
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 17/06/2025
- ISBN
- 978-65-6042-167-7
- Preço de capa
- R$ 69,90
Espiritualidade, violência e esperança formam a atmosfera que envolve o morro da Anunciação e seus arredores, o local onde se passa a narrativa de "Calvário", livro de Rosanne de Souza. O cotidiano da população do lugar, apesar de colorido de canções e sonhos, é manchado pela desconfiança e a expectativa de eminentes tragédias. Nesse ambiente contraditório, a terna amizade travada entre o jovem Pedro e o monsenhor João cresce e se desenvolve em direção a um desenlace incerto, onde a verdade dos fatos é capaz de revelar as intenções dos corações observadores.
Citações
“Assim que cessavam as ladainhas, Pedro corria pelos degraus molhados que subiam o morro íngreme da Anunciação. O único lugar aonde ele queria ir e que era também o único do qual sua mãe o proibia. Além disso, nenhuma das outras crianças gostava de brincar no chão desgastado pelos tiros enferrujados da capela de São João da Cruz. Mesmo proibido, o menino não deixava de visitar o lugar sempre que arranjava uma oportunidade. Com todo o cuidado possível para sua tenra idade, ele acertara com os companheiros de travessuras para que nenhum deles revelasse suas escapadas para a capela e voltava para casa junto com as outras crianças como se tivesse passado o dia em sua companhia.”
“A primeira coisa de que o pequenino se lembrava era de quando descobrira a capelinha, seu lugar preferido, na noite de Natal. As ruazinhas eram curtas o bastante para que as brincadeiras fossem ágeis. O pega-pega era delicioso, veloz, um êxtase de risadinhas cândidas, alegria de quem ainda não tinha visto o mal do mundo. Nesse dia, 24 de dezembro, ele enveredou por uma avenida, deixando ao longe os risos calorentos dos companheiros. Suando às bagas, reparara de imediato na pequena estatuazinha do bebê Deus que viera ao mundo. Era só isso o que sabia, porque ouvira por acaso quando Mariana o levara pela primeira vez para ver a vovó.”
“Foi pouco depois, quando visitou a casa da Dona Dulce, que Mariana o proibiu. Depois de um tapa bem dado, como ela chamou, arrastou-o para o barraco pelo braço magro. De vez em quando, virando para trás para falar algo feio para o Pe. João. Na época, Pedro não entendeu, mas o homem não disse nada. Apesar de incomum, a capela, o padre e a proibição da mãe tiveram um grande impacto no que se tornaria aquela criança magra e pequena. Desde aquela época, o sacerdote já podia constatar que o interesse tão intenso e precoce de Pedro determinaria o rumo que sua história iria tomar. Enquanto a mãe puxava Pedro para cada vez mais longe da capela, os olhos do rapazinho se fixavam com ainda mais intensidade nos de Pe. João.”
“Um homem corpulento de cabelos bem apertados, de pele marrom escura e olhos cintilantes se curvava num traje preto. Pela sua aparência, parecia estar na meia-idade. O menino de shortinhos vermelhos e camisa manchada de café e pasta de dente, ficara plantado em frente à obra do homem de preto. — O que tá fazendo? — O menino perguntou inocente. — O presépio! — Respondeu o homem com uma voz bem profunda acompanhada de um sorriso. — Pra festa do bebê Deus — disse o pequeno recordando as palavras soltas da avó, cuidadosamente interrompidas por Mariana. O sorriso que trocaram naquela tarde selou uma amizade para a vida inteira.”
Sobre a autoria
Rosanne de Sousa
@rosanne_gyselleGraduada em Letras Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Pará, Rosanne de Sousa é professora, escritora, pintora e compositora iniciante. E, nas horas vagas, musicista.
Ficha técnica
| Autoria | Rosanne de Sousa | @rosanne_gyselle |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Khálysto Soares | @khalysto.soares |
| Revisão | Letícia M. Zambon |
Contato
Imprensa: imprensa@mondru.com
Site: mondru.com/livros/calvario/