Calvário
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O pega-pega era delicioso, veloz, um êxtase de risadinhas cândidas, alegria de quem ainda não tinha visto o mal do mundo.
Sobre o livro
Espiritualidade, violência e esperança formam a atmosfera que envolve o morro da Anunciação e seus arredores, o local onde se passa a narrativa de "Calvário", livro de Rosanne de Souza. O cotidiano da população do lugar, apesar de colorido de canções e sonhos, é manchado pela desconfiança e a expectativa de eminentes tragédias. Nesse ambiente contraditório, a terna amizade travada entre o jovem Pedro e o monsenhor João cresce e se desenvolve em direção a um desenlace incerto, onde a verdade dos fatos é capaz de revelar as intenções dos corações observadores.
violência explícita
Por que publicamos
Calvário reúne, no mesmo território, a fé e a violência do cotidiano. O faz pela amizade entre um menino do morro e um padre cercado de boatos. A narrativa alterna memória, entrevista e cenas de rua, e deixa a verdade surgir aos poucos, em versões que se contradizem.
Publicamos o livro por essa escolha: olhar a periferia sem transformá-la em cartaz, com personagens que riem, rezam, duvidam e insistem. É um romance que pede leitura atenta e deixa perguntas sobre justiça, escuta e perdão.
“Assim que cessavam as ladainhas, Pedro corria pelos degraus molhados que subiam o morro íngreme da Anunciação. O único lugar aonde ele queria ir e que era também o único do qual sua mãe o proibia. Além disso, nenhuma das outras crianças gostava de brincar no chão desgastado pelos tiros enferrujados da capela de São João da Cruz. Mesmo proibido, o menino não deixava de visitar o lugar sempre que arranjava uma oportunidade. Com todo o cuidado possível para sua tenra idade, ele acertara com os companheiros de travessuras para que nenhum deles revelasse suas escapadas para a capela e voltava para casa junto com as outras crianças como se tivesse passado o dia em sua companhia.”
“A primeira coisa de que o pequenino se lembrava era de quando descobrira a capelinha, seu lugar preferido, na noite de Natal. As ruazinhas eram curtas o bastante para que as brincadeiras fossem ágeis. O pega-pega era delicioso, veloz, um êxtase de risadinhas cândidas, alegria de quem ainda não tinha visto o mal do mundo. Nesse dia, 24 de dezembro, ele enveredou por uma avenida, deixando ao longe os risos calorentos dos companheiros. Suando às bagas, reparara de imediato na pequena estatuazinha do bebê Deus que viera ao mundo. Era só isso o que sabia, porque ouvira por acaso quando Mariana o levara pela primeira vez para ver a vovó.”
“Foi pouco depois, quando visitou a casa da Dona Dulce, que Mariana o proibiu. Depois de um tapa bem dado, como ela chamou, arrastou-o para o barraco pelo braço magro. De vez em quando, virando para trás para falar algo feio para o Pe. João. Na época, Pedro não entendeu, mas o homem não disse nada. Apesar de incomum, a capela, o padre e a proibição da mãe tiveram um grande impacto no que se tornaria aquela criança magra e pequena. Desde aquela época, o sacerdote já podia constatar que o interesse tão intenso e precoce de Pedro determinaria o rumo que sua história iria tomar. Enquanto a mãe puxava Pedro para cada vez mais longe da capela, os olhos do rapazinho se fixavam com ainda mais intensidade nos de Pe. João.”
“Um homem corpulento de cabelos bem apertados, de pele marrom escura e olhos cintilantes se curvava num traje preto. Pela sua aparência, parecia estar na meia-idade. O menino de shortinhos vermelhos e camisa manchada de café e pasta de dente, ficara plantado em frente à obra do homem de preto. — O que tá fazendo? — O menino perguntou inocente. — O presépio! — Respondeu o homem com uma voz bem profunda acompanhada de um sorriso. — Pra festa do bebê Deus — disse o pequeno recordando as palavras soltas da avó, cuidadosamente interrompidas por Mariana. O sorriso que trocaram naquela tarde selou uma amizade para a vida inteira.”

Rosanne de Sousa
Graduada em Letras Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Pará, Rosanne de Sousa é professora, escritora, pintora e compositora iniciante. E, nas horas vagas, musicista.
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Mondru · Novel · 144 pages
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