A cena literária brasileira recebe com entusiasmo a chegada de "Contos do Nordeste Antigo", de Wagner Pires da Silva, uma obra que promete transportar os leitores para um período fascinante e, muitas vezes, brutal da história do Nordeste brasileiro. Esta coletânea de contos se destaca por sua abordagem singular, que explora as complexas camadas sociais, culturais e humanas que moldaram a região durante o período colonial e os primórdios do Império.
A inovação do livro reside em sua capacidade de dar voz a uma miríade de personagens, oferecendo múltiplas perspectivas sobre a vida naqueles tempos. Através das páginas, somos apresentados a indivíduos escravizados, como Salah, que confronta a desumanidade de sua condição e anseia pela liberdade. Conhecemos também a experiência de missionários jesuítas, como Tomaz, que se veem desafiados pelas realidades "ao avesso" da nova terra.
A riqueza da narrativa também se manifesta na exploração de outras figuras históricas e sociais, como os Cristãos Novos, representados por Vasco, que enfrentam a perseguição e a intolerância religiosa mesmo no Brasil. Há contos que mergulham na vida dos povos indígenas, como a história de Pedro Potiguara, um índio catequizado que se vê em um limbo cultural, e a jornada transformadora de Pajé-Guaçu, que se torna um ferrenho inimigo dos europeus para proteger seu povo.
A obra não hesita em retratar as duras realidades da época, incluindo a violência da escravidão, os conflitos interétnicos e religiosos, e as complexas relações de poder que definiam a sociedade colonial. Personagens como Dona Ana, uma matriarca que constrói seu legado com resiliência, o "ganhador" Terto em Salvador, que lida com a injustiça e a esperança de vingança, e a "bruxa" Luísa de Sá, que encontra acolhimento e conhecimento entre os índios, exemplificam a luta e a adaptação dos que viveram nessas terras.
"Contos do Nordeste Antigo" se apresenta como um convite irrecusável para revisitar a história do Brasil sob um novo prisma. Ao tecer histórias com profundidade humana e um senso aguçado da época, Wagner Pires da Silva oferece uma experiência literária envolvente, que certamente enriquecerá a compreensão do leitor sobre as diversas vozes e os desafios que forjaram a identidade nordestina e, por extensão, a brasileira.
Sobre a obra
- Gênero
- Contos
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 88
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 28/01/2026
- ISBN
- 978-65-6042-244-5
- Preço de capa
- R$ 59,90
“Contos do Nordeste Antigo” tece um panorama vibrante e muitas vezes brutal do Nordeste brasileiro durante o período colonial e os primórdios do Império. A obra mergulha nas vidas de diversos personagens – como escravizados em busca de liberdade, missionários confrontando uma nova realidade, indígenas defendendo suas tradições e colonos lutando por seu lugar e crenças – revelando as complexas interações e os choques culturais que moldaram a região. Através de suas narrativas, o livro explora a luta incessante pela sobrevivência, identidade e autonomia em um cenário de profundas desigualdades, violência e transformação, convidando o leitor a uma reflexão sobre as raízes multifacetadas da alma brasileira.
Citações
“Estava em Olinda, no Brasil. Salah recebeu o nome de Francisco, santo de devoção do homem que o comprara. Fora amarrado pelos pulsos a um carro de boi que foi lentamente se distanciando da cidade. Ao seu redor ouvia mais daquela língua estranha, áspera. Viu outros escravizados como ele, seguindo docilmente para as plantações ou acompanhando seus senhores brancos. Ele não deixava de olhar para trás, vendo a cidade apequenar-se e depois o mar ficando longe, longe... Quando se deu conta de que não podia mais vê-lo, Salah se permitiu, pela primeira vez desde que se dera conta de que caíra nas mãos de traficantes de escravos, chorar. Sua jornada iria levá-lo para uma terra parecida com a sua, mas que, no entanto, seriam as terras de seu suplício. Seguiam seus detratores firmes rumo aos Cariris Novos, ao Siará, lhe explicara um cativo mais velho, soubessem os deuses onde lá ficava isso.”
“Ele a repreendeu. Era perigoso fazer aquilo. Tanto quanto era perigoso ir aos banquetes aos quais eram convidados. Carne de porco, além de linguiças e salames poderiam ser servidos. Bastava uma leve recusa para ser denunciado como judaizante. Vieram para o Brasil acreditando que na nova terra teriam mais liberdade. Ledo engano. Em cada casa, em cada esquina, poderia haver um delator. Mesmo não havendo tribunais da inquisição no Brasil, ela era ativa naquelas terras. Muitos cristãos novos eram encarcerados e levados ao reino por simples suspeitas. O que se diria deles, que praticavam realmente o culto mosaico?”
“No quartinho em que morava com a mãe, contou-lhe como perdera o dia inteiro de trabalho e agora chegava em casa de mãos vazias. A preta velha sorriu e afagou os seus cabelos, falando com a experiência de quem crescera em meio às selvas d'África e que viera ao Brasil passar poucas e boas: 'Amanhã, meu filho, há de ser um outro dia. Hoje, o branco nos rouba, nos bate, faz conosco o diabo. Mas, um dia, nosso povo há de entender a sua força. Nesse dia, a brancarada há de sair por aí se escondendo de casa em casa, de beco em beco, da fúria do povo de santo. Nesse dia seremos vingados. Agora vai, descansa. Amanhã cedo mestre Zeza há de lhe arrumar algo melhor.'”
“No mesmo dia, tomei meus guerreiros e voltei para casa arrasando tudo o que fosse dos brancos e de seus aliados. Reneguei ao seu Deus cristão. Volto a ser a Cobra Grande que vai atormentar o Peró e o mair. Eu vou deixá-los viver. Mas quero que partam agora e digam ao jovem guerreiro branco, que aqui veio a mandado do rei, que eu vou ser seu inimigo. Farei tanto prejuízo ao seu rei, que ele vai pedir a cabeça do homem que me ofendeu. Só assim, então, minha ira se aplacará.”
“Afonso seguiu seu caminho, pisando firme na areia fofa do caminho, desejando nunca ter ido até ali para essa conversa. O Brasil podia até ser o Novo Mundo, mas ali viviam homens do velho mundo, impondo sua vontade e seu poder sobre os pobres, como em sua terra, e sobre as gentes do Brasil.”
Sobre a autoria
Wagner Pires
@wagnerpiressWagner Pires é administrador, historiador, contista e escritor. Cearense de Fortaleza utiliza em suas histórias, as vivências e experiências que adquiriu em suas andanças por todo Brasil. Autor dos livros Uns tantos contos (Antologia), O Caçador de Sereias (UICLAP). Vencedor do Prêmio Sesc de Contos 2018 (Sesc Ceará) e do Prêmio Strix de Literatura 2024 (Editora Andross).
Ficha técnica
| Autoria | Wagner Pires | @wagnerpiress |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Khálysto Soares | @khalysto.soares |
| Revisão | Vanessa Pinto Rodrigues Farias |
Contato
Imprensa: imprensa@mondru.com
Site: mondru.com/livros/contos-do-nordeste-antigo/