A literatura contemporânea ganha um novo contorno com o lançamento de "Lembrar esquecer", de Gianou Viana, uma obra que transcende a definição tradicional de livro de poesia para se estabelecer como um objeto artístico híbrido. Destaca-se a singularidade de sua proposta: uma exploração profunda das tensões entre o indivíduo e o coletivo, mediada não apenas pelo verso, mas pela materialidade da gravura. Como aponta o prefácio de Cícera Lins dos Santos, o livro apresenta um "caminhante em viagem", impulsionado pelo movimento do retorno, onde a memória é formalizada tanto pelo afeto ao que foi perdido quanto pela resistência ao esquecimento.
A estrutura da obra é uma de suas principais inovações artísticas. Viana organiza o livro em seis partes que sugerem um processo físico e emocional de desgaste e reconstrução: "Resíduo", "Sobra", "Falta", "Incisão", "Desgaste" e "Acúmulo". Essa divisão não é meramente capitular, mas reflete a própria técnica da gravura que permeia o livro — feita de cortes, marcas e silêncios que atravessam a matéria. O autor convida o leitor a transitar por uma "encruzilhada" de sentidos, onde o ato de lembrar se confunde com o de esquecer, criando uma "estatística da errância" que mapeia desde os pios de aves do sertão até os silêncios familiares.
Uma das grandes qualidades de "Lembrar esquecer" reside na sua capacidade de sincretismo cultural e religioso, transformando a experiência pessoal em uma voz coletiva. O eu lírico atua como um antropófago, absorvendo "dores agrestes" e formas clássicas subvertidas para reverberar vozes alheias, como as das lavadeiras, do avô Bião e da bisavó Iaiá,,. A obra é nutrida pelas vivências da casa de Axé Caboclo Pedra Roxa, zelando por memórias e saberes ancestrais, o que confere aos poemas uma textura de "benzedura" e ritual, onde o sagrado e o profano se encontram na "ponta seca" da escrita,.
Visualmente, a obra destaca-se pela integração orgânica entre texto e imagem. O livro inclui um glossário técnico que não serve apenas como apêndice, mas como chave de leitura: as técnicas de xilogravura, água-forte e maneira negra são metáforas para a fixação da memória na "matriz" da vida,,. Há uma inovação estética notável no uso da mancha gráfica e do espaço em branco, exemplificada em poemas visuais onde a repetição de palavras como "prender-se" e "perder-se" ou "arrepender-se" cria uma textura visual que simula o desgaste do tempo e a insistência da memória.
Por fim, "Lembrar esquecer" é um convite a uma leitura que reconcilia o leitor com o inacabado. Ao invés de oferecer respostas, Gianou Viana entrega um "manual de esquecimento", sugerindo que aprender também é uma forma de lembrar e que o corte — seja na carne, na madeira ou no papel — é o que sobra e o que fica. A obra de Viana, portanto, não apenas registra o passado, mas o reconfigura, permitindo encontrar beleza na persistência e na dissolução, como um "fino tecido que se destece" para nos revelar novas formas de existir.
Sobre a obra
- Gênero
- Poesia
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 144
- Lançamento
- 15/07/2026
- ISBN
- 978-65-6042-248-3
- Preço de capa
- R$ 89,90
Em Lembrar Esquecer, o poema de abertura, “encruzilhada”, ocupa o lugar que nos épicos clássicos pertence à invocação, mas desloca o seu sentido. Se Homero pede às musas a memória dos feitos da Grécia, Virgílio, a memória heroica de Roma, e Camões solicita às ninfas do Tejo o engenho e a arte para narrar guerras passadas e a glória das navegações, aqui não se pede inspiração nem canto elevado — pede-se passagem. Onde a tradição épica buscava fluência e harmonia, este livro assume o obstáculo e a comunicação difícil: a palavra precisa atravessar gargantas roucas, tempos quebrados e memórias gastas. Por isso, a invocação se dirige a Exu, senhor da linguagem, do trânsito e do risco; aquele que permite, ou não, que algo circule entre mundos. O livro não busca beleza estável, mas a capacidade de passar: de boca em boca, de tempo em tempo, de vida em vida. Sem prometer retornos gloriosos, Lembrar Esquecer percorre a tradição clássica para transformar o antigo canto em travessia, ao guardar o que sobra, aceitar a falha e insistir na possibilidade ética da transmissão possível.
Citações
“linhagem habitual faca tingida de ferrugem óxido fio de lâmina com viés lentamente enesgado pelo ritual rude da empunhadura calejada do bisavô que não conheci mesmo protegida na bainha de couro encruado escorada à parede de lembranças escoadas a casa que eu nunca habitei por revés vez ou outra ainda corta reimosa a minha carne manual de esquecimento: lição para deixar de aprender e de ensinar menino para virar homem que se aprove não chora não esperneia nem se protege na barra da saia da mãe engole como murro no peito um oceano de lágrimas a se fingir de seco”
Sobre a autoria
Gianou Viana
@gianouvianaGianou Viana nasceu em 1985 no município de Canarana/BA. É Licenciado em Artes Visuais e Especialista em Arte na Educação pela Universidade de São Paulo. É arte educador, pintor, gravador e poeta. Realizou exposições individuais e coletivas. Publicou os livros “Aula Como Obra”, “Escola Como Ateliê” (ambos pela Kotter) e “Pequeno Baco Doente” (pela Mondru). Vive em São Paulo há quase 30 anos.
Ficha técnica
| Autoria | Gianou Viana | @gianouviana |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Khálysto Soares | @khalysto.soares |
| Revisão | Matheus Mitre | @mmitretayar |
Contato
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Site: mondru.com/livros/lembrar-esquecer/