A ntologia "Onde mora a poesia", organizada pelas professoras Kellen Dias e Leila Mendes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), desafia o leitor a uma profunda reflexão sobre a própria essência da poesia, especialmente a poesia feminina. A obra se propõe a explorar o que as mulheres falam e escrevem, partindo do princípio de que a expressão poética nasce daquilo que as afeta profundamente. Composta por textos de trinta e duas mulheres – entre discentes, docentes e servidoras de instituições públicas de quase todas as regiões do Brasil –, a antologia é um movimento estético do dizer, plural e heterogêneo, mas intrinsecamente atravessado por memórias do feminino.
A antologia inova ao questionar a própria "morada da poesia", confrontando a tradição que, historicamente, não a pressupõe "em boca de mulher". As autoras, com suas "vozes que duram dentro e através de nós", transformam a lógica da vida, invertendo o "embaixo no em cima" e o "na frente, o verso, de avesso e de rima". A obra se torna um abrigo para as vozes de bruxas, santas e silenciadas, nutrindo forças e curando feridas antigas. Ao trazer a primeira pessoa para a tese, as poetas honram Conceição Evaristo e rompem as barragens da Academia e da tradição. A poesia, aqui, não tem endereço fixo, mas "insiste, e se faz presente onde menos se imagina, tal qual a plantinha que brota na rachadura, dando vida ao impossível".
A narrativa da antologia é construída a partir das múltiplas vivências e perspectivas dessas mulheres. Textos como "Palavra Grito" de Duda Piliçari exploram a intensidade de um amor quase sufocante e a crítica à superficialidade social. Janaína Cabello tece uma vigorosa defesa da educação e saúde públicas, dos espaços e pessoas marginalizadas, da ciência e do gozo da vida. Amanda Castro convida à fuga para o mundo interior e à busca pela felicidade em meio à rotina exaustiva. Cristyane Leal celebra a ancestralidade e o poder das mulheres negras através do tecer, plantar e cantar. Doris Barros desafia os cânones burgueses e culturais da academia, reivindicando seu lugar como mulher negra. Michele Soares reinterpreta a figura bíblica de Eva e traz a voz profética de Cassandra para o contexto acadêmico contemporâneo. Karlana Souza e Iamni Reche exploram as tensões entre a vida doméstica e a produção intelectual feminina, revelando os desafios da criação em meio às obrigações cotidianas.
A diversidade de temas é vasta, abrangendo desde a maternidade e a paixão em poemas como "Mãe de Ashanti" de Lara Bessa, até a reflexão sobre a timidez e as lutas históricas das mulheres em "Ela é quieta" de Maria de Jesus Santos. Matile Facó e Patrícia de Campos Occhiucci destacam a poesia como subversão dentro do ambiente acadêmico, revelando a força transformadora da palavra feminina. Larissa Artiaga, mulher lésbica e umbandista, utiliza a escrita como forma de lutar contra preconceitos, transformando ódio em amor e armando o povo com livros e direitos.
A proposta da antologia é, portanto, não apenas celebrar a riqueza da poesia feminina brasileira, mas também ressignificar sentidos normatizados, criar fissuras nas normas instituídas e, assim, curar as cicatrizes das memórias e nos fazer "pensarmos em outros mundos". É um convite prazeroso para partilhar descobertas e reforçar a presença inabalável da poesia nas vidas das mulheres que, mesmo sem um "endereço fixo" para ela, sabem exatamente onde encontrá-la.
Sobre a obra
- Gênero
- Poesia
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 112
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 07/08/2025
- ISBN
- 978-65-6042-173-8
- Preço de capa
- R$ 49,90
"Onde mora a poesia: a poética feminina na universidade" é uma antologia poética, com a curadoria das professoras, pesquisadoras e escritoras Kellen Dias e Leila Mendes, ambas docentes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A escrita como labor no mundo acadêmico é corpo do imaginário nas idealizações e realizações das pesquisas, experiências, assim como é corte profundo da imaginação em modelos textuais rígidos e castradores. No entanto, corpos femininos, entrecortados pelo múltiplo, extrapolam poesia. Assim, a antologia busca desenhar uma estrada possível a essa linha de fuga de quem trabalha com a palavra, dando chance de ela fluir imageticamente em prosa e versos, reunindo a produção de mulheres cis e trans que habitam o espaço das universidades públicas brasileiras.
Citações
“Nessa antologia, nos desafiamos a pensar sobre a morada da poesia, chamada feita para mulheres que habitam o espaço da universidade pública. Pensar onde mora a poesia feminina, implica pensar sobre o que nós, mulheres, falamos/escrevemos. E a gente só fala/escreve sobre aquilo que nos afeta. Ninguém fala sobre algo que ignora. Nesse sentido, perguntamos: que afetos atravessam os corpos das mulheres que escrevem poesia? O que marca o corpo físico e simbólico de uma mulher? O que ela guarda na memória? Essa memória, e a materialização dessa memória, é o resultado da forma como nos dobramos sobre o mundo e sobre nós mesmos, revivendo a experiência estética que é também política e ética. E se nos debruçamos sobre a escrita, fazemos poesia. Assim, a poesia feminina é um movimento estético do dizer. De um dizer plural e heterogêneo, mas que atravessado por memórias do feminino. Escrever/ler poesia de mulheres permite-nos ressignificar sentidos normatizados, criar furos nas normas instituídas, ajudando-nos a curar as cicatrizes das memórias e a pensarmos em outros mundos.”
“E a chamada ressoou, fez eco. Textos de trinta e duas mulheres compõem essa Antologia. Trinta e duas mulheres discentes, docentes e servidoras representando instituições públicas de quase todas as regiões do Brasil.”
“Kellen Dias e Leila Mendes”
Autoria
Kellen Dias
É carioca, nasceu em 1979, e cresceu no subúrbio da cidade. Viveu a infância encantada pelos “livros de adulto” de seu pai, fascinada pela ficção e pela filosofia… Essa paixão a fez professora, fez Graduação, Mestrado e Doutorado em Letras na UERJ, seu lugar preferido. Hoje, é docente da mesma instituição, e multiplica a paixão pela literatura com seus alunes. A poesia sempre a acompanhou e começou a querer ganhar o mundo. Honrando o fêmino-poder de comunhão, ela deu a mão à outra mulher-poeta e publica “Subterrâneos do útero”, sua obra poética de estreia.
Leila de Carvalho Mendes
@LEILADECMLeila Mendes é doutora em Língua Portuguesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, desde 2000, Leila tem se dedicado ao ensino superior e à formação de professores. Além de sua trajetória acadêmica, Leila Mendes se dedica à produção literária com a publicação de seu primeiro livro de poesias, Subterrâneos do Útero (Editora Mondru) em 2022, e, em 2024, coorganizou a antologia Onde mora a poesia, em parceria com Kellen Dias, buscando ouvir as vozes das mulheres que ocupam o espaço público. Com a publicação de Aninha e o medo que não dormia, pela Porquê, selo infantil da Editora Mondru, Leila se lança no cenário da literatura infantojuvenil.
Ana Carolina da Silva Coelho, nasceu dia 24 de Outubro de 1995 em Minas Gerais, onde viveu até os sete anos de idade, quando se mudou para o Rio de Janeiro com a família. Começou a desenhar na infância como quase toda criança, e continua desenhando até hoje, como quase nenhum adulto. Ama pintar com aquarela, mas confessa que a arte digital anda ocupando cada vez mais espaço no seu coração. Atualmente cursa Pedagogia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro - FEBF e tem como hobbie (além da ilustração) ler hqs e livros góticos/Russos/infanto juvenil, claro, sem deixar os desenhos animados de lado.
Ficha técnica
| Autoria | Kellen Dias, Leila Mendes | @LEILADECM |
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| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Augusto Oliveira | |
| Revisão | Beatriz Chaves |
Contato
Imprensa: imprensa@mondru.com
Site: mondru.com/livros/onde-mora-a-poesia/