Um novo e provocador volume de poesia, "Pá-Lavra", de autoria de Mathias de Alencar, publicado pela Mondru Editora, promete chacoalhar as expectativas dos leitores e redefinir a experiência da leitura poética. Longe de oferecer consolo ou entretenimento superficial, a obra se apresenta como um desafio à complacência, um convite a uma imersão literária visceral que não se furta a explorar as profundezas e as asperezas da existência humana. Desde as primeiras linhas, o autor adverte que aqueles que buscam "o que conforte" talvez encontrem "impressão de dor nas costas" em vez de alívio, sugerindo que a verdadeira poesia é um "artesanato, é construção" que vai além do convencional e do meramente ornamental.
A "palavra" em "Pá-Lavra" transcende sua função meramente comunicativa; ela emerge como uma força cortante e reveladora, um instrumento afiado capaz de perfurar a superficialidade. Conforme os versos, a "palavra não diz só amor e morte", mas se torna "afiada", capaz de "matar de nojo, vergonha, de fome quem vive de pompa, de gala enquanto um e outro nem come". Esta obra não se limita a um romantismo diluído, mas se debruça sobre o "alarido cá dentro inferno!" do eu lírico, navegando por "culpas latitudinais" e pela "palavra que não diz o que perdi". É um trabalho que escreve "a-pesar" e "quase sem corda", desnudando uma realidade muitas vezes brutal e sem maquiagens.
Através de uma narrativa intrínseca e por vezes fragmentada, "Pá-Lavra" desdobra um "Eu" multifacetado, explorando as complexidades da identidade e da experiência humana. Temas como amor, perda, persistência, niilismo, e a crueza das relações – como na assertiva "só arde porque tá vivo" – são abordados com uma linguagem crua e visceral. O livro questiona a própria capacidade de expressão, refletindo sobre o "verbo... ébrio" que "prefigura aos poucos as bordas do acaso no descaso que cada verso meu irriga". A obra se lança a uma profunda introspecção, onde a escrita é vista até mesmo como uma "traição" que "arrisca" desvelar o não dito, buscando "subtrair[-se] do silêncio".
Através de sua voz poética, Mathias de Alencar convida o leitor a um confronto com a "inquietaciturnamente" da existência. A poesia de Alencar, que se move entre a delicadeza e a brutalidade, revela um "Eu" que se "parte em pedaços" e "refaz", navegando entre a "dor nas costas" e a busca por um sentido mais profundo. O trabalho com a linguagem é um ato de coragem e "persistência", mesmo diante de vozes que "rapinam sentidos" e de uma realidade social que "não mata a fome – antes a estampa manchada, por acidente, sussurra a voz da morte".
"Pá-Lavra" não é apenas uma coleção de poemas; é um manifesto poético que desafia as normas estabelecidas e convida à reflexão profunda. Sua relevância reside na coragem de expor as feridas da alma e as chagas da sociedade, sem filtros. Ao se recusar a oferecer respostas fáceis ou conforto imediato, a obra de Mathias de Alencar reafirma o poder transformador da palavra, que "pesa mais do que dez elefantes do circo transnacional" , e o potencial da poesia em "desvendar à letra o germe a geração". Para leitores dispostos a serem tocados pela intensidade e profundidade, "Pá-Lavra" é uma experiência literária imperdível, um corte necessário na tapeçaria do cotidiano, onde a vida "só arde porque tá vivo".
Sobre a obra
- Gênero
- Poesia
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 104
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 17/06/2025
- ISBN
- 978-65-6042-162-2
- Preço de capa
- R$ 59,90
Os poemas reunidos em Pá-Lavra pretendem render homenagem ao material de que todo artesão literário, todo poeta, depende. Trabalhar a palavra é, nesse caso, o desafio maior, porque afinal é com palavras que marcamos nosso destino de pertencimento, de encontros e de saudades. O dizer, por jamais dizer tudo, diz sempre mais do que se quer. A artesania do verso é, portanto, um exercício de calibragem, dependente de um mergulho em si, quase um afundar-se em águas desconhecidas, na terra molhada da infância, onde toda árvore nasce. A poesia se faz, assim, pelo tornar-se sem jamais estar dado, pelo devir que se descobre na escrita como releitura de outros versos, de muitos poetas. Este Pá-Lavra, ao tornar possível ao poeta cultivar desde dentro suas marcas e travessias, sua terra e suas sementes, esboça uma homenagem às leituras que modelam o desafio de ser um em comum, de nos permitir, enfim, dizer um pouco melhor o que somos, para criar e cultivar a lida com isso onde nos reencontramos na partilha – o lugar da palavra.
Citações
“Lingu[a]gente Foi feito sem razão o beijo encruzilhava em soltaferas línguas de lava queimamilos me diz désejà-vu sabido já não ouve ventriloquente arrimo arruma termo enfim. De boca aberta troça traduz fantasma em gesto rejeita amor recluso voz transamordaçada não houve a vez d’ouvinte éloquaz[mente] atroz se fala morde a língua consome afeto mudo. Colericoalescência entre-não-transeuntes divergencianureto que tu me infl[amas], Bia! na boca cerram pernas à pena vale o cerco? em sonho secoragem por outro renega[dor].”
Sobre a autoria
Mathias de Alencar
@mathiasdealencarMathias de Alencar é poeta e professor. Carioca radicado em terras amazônidas, é autor dos livros de poesia Ninguém há de doar-se a dois amores ou Julieta (Folheando, 2023) e Poem(a)limpo (Amazon, 2024 - Nova edição especial 10 anos) e do romance Falosofia de Mulher, a ser reeditado em breve pela O Zezeu. Ganhou o prêmio internacional Sweek Tomorrow (2017) pelo melhor conto escrito em língua portuguesa. Escreve mensalmente para a Revista Literária O Zezeu.
Ficha técnica
| Autoria | Mathias de Alencar | @mathiasdealencar |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Augusto Oliveira | |
| Revisão | Matheus Mitre | @mmitretayar |
Contato
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Site: mondru.com/livros/pa-lavra/