A obra "Taxidermia dos meus dias", de Maykel M. de Paiva, chega ao público como um convite para adentrar um "museu de inícios", onde o autor realiza um processo literário cirúrgico sobre o próprio passado. O título da obra não é acidental; ele reflete a intenção deliberada do eu lírico de preparar seus primeiros dias com o cuidado de um taxidermista, separando as "espécies mais ou menos diversas" e retirando as "epidermes das memórias" para curti-las e preservá-las. Este lançamento se justifica pela necessidade de expor as "carcaças imaturas" que foram usadas para moldar os detalhes de uma vida, revestidas com a lealdade do que o autor foi e do que ainda resta dessa essência.
Estruturalmente, o livro organiza-se através da cronologia de um dia metafórico que representa a existência inteira, dividindo-se em seções como "Manhãs", "Tardes", "Noites" e a final "Son(h)olência". O autor propõe que a vida é "como um dia inteiro / Que nasce, vive, morre e renasce", guiando o leitor por horários específicos — de 05h21 a 03h17 — que marcam a evolução dos sentimentos e das percepções. Essa progressão temporal serve como fio condutor para explorar a "aurorescência" dos começos e o inevitável escurecer das certezas conforme a noite da alma se aproxima.
Uma das maiores qualidades da obra reside na sua honestidade brutal e na exploração da identidade através de reflexões especulares. Em textos como "Espelho colorido", o protagonista tenta se reconstruir colorindo suas mentiras e desejos, apenas para confrontar um reflexo antigo, questionando se é "o reflexo ou o refletido". A obra destaca-se pela capacidade de transformar a angústia existencial em imagens poéticas tangíveis, onde o eu lírico se sente muitas vezes como um "não-lugar", um espaço onde o vazio se cria e onde as direções percorridas parecem guiadas por vontades cegas.
A temática do amor e dos relacionamentos permeia o texto com uma melancolia palpável, variando entre o afeto fraternal e os amores românticos não correspondidos ou proibidos. Há uma dor latente nas interações descritas, como no poema "Meu irmão", que lista uma série de "nuncas" — abraços nunca enlaçados e segredos nunca criados — revelando uma saudade do que não foi vivido. Simultaneamente, o livro aborda amores complexos, como o sentimento por um garoto que "gosta de garotas que tenham os cabelos grandes", expondo a vulnerabilidade de amar "fantasmas tão reais quanto esses versos".
Além da introspecção pessoal, "Taxidermia dos meus dias" utiliza metáforas religiosas e apocalípticas para ilustrar conflitos internos e o julgamento social. No poema "Sodoma e Gomorra", o autor apropria-se da narrativa bíblica para descrever uma "destruição que mora sobre as nossas cabeças" e a sensação de ser um sobrevivente em um mundo empoeirado, onde o "vício da Crueldade nos foi dado de maneira brilhante". Essa dimensão confere à obra um peso dramático, elevando as experiências individuais a um patamar de tragédia universal.
Em suma, "Taxidermia dos meus dias" é uma obra de resistência e conservação emocional. Ao questionar "O que é o dia senão a vida?", o autor entrega um texto que transita entre a prosa poética e o verso livre, capturando o leitor pela vulnerabilidade de quem admite ser "Aquele que nasceu para morrer e por isso vivo". É uma leitura essencial para quem busca compreender como as memórias, mesmo as dolorosas, podem ser artisticamente preservadas para que a alma não sucumba ao esquecimento total.
Sobre a obra
- Gênero
- Poesia
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 140
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 18/03/2026
- ISBN
- 978-65-6042-253-7
- Preço de capa
- R$ 62,90
“Taxidermia dos meus dias”, de Maykel M. de Paiva, constitui-se como um “museu de inícios” onde o autor preserva visceralmente as “epidermes das memórias” e as “carcaças imaturas” de sua própria história, utilizando a metáfora da taxidermia para curtir e manter viva a essência do que foi vivido. Estruturada cronologicamente para espelhar a existência como “um dia inteiro / Que nasce, vive, morre e renasce”, a obra transita entre as seções “Manhãs”, “Tardes”, “Noites” e “Son(h)olência”, explorando a angústia da solidão, a complexidade dos afetos e a busca pela identidade em um “não-lugar” existencial. Através de uma linguagem que mescla prosa e poesia, o livro propõe a conservação da “própria imperfeição” e dos “relevos de ausências” como objetos frágeis e preciosos, convidando o leitor a testemunhar um processo literário de sobrevivência e resistência ao esquecimento.
Citações
“Eu preparei os meus primeiros dias com o cuidado que o instante reza: separei as espécies mais ou menos diversas; tirei as epidermes das memórias; as curti em um ímpeto que as colocaram como quase importantes. Usei as carcaças imaturas para moldar os detalhes que pareciam palavras ao léo.”
“Assim, eu preservei o rosto da arritmia romântica que apertou o meu peito; os relevos de ausências muito antes do meu nascimento; os castigos e as cantigas analógicos que vibraram no meu corpo e adjacências. Eu me tornei o álcool e o formol daqueles que me deram e me tiraram a vida, em todos os sentidos.", "Eu tentei me construir no espelho: primeiro colori as minhas roupas, as minhas mentiras e os meus desejos com um lápis de ponta camaleão. Depois, com os dedos, cortei os meus cabelos, sorri e permaneci sorrindo, ao mesmo tempo em que a minha alma chorava em algum lugar incolor.”
“A vida é como um dia inteiro Que nasce, vive, morre e renasce. A manhã sorri como uma criança pronta para descobrir o mundo, Tirando e chamando as cores de algum lugar que nossos olhos não tocam Para que juntas caminhem em um futuro incerto, mas esperado.”
“E eu sou aquele que sobreviveu ao Seu calor e cheiro, Sem caminho algum para seguir, sem um alguém para me adorar. Depois dos restos de glória espalhados pelo chão, Assim como os quebrados portões da minha terra, O silêncio me mostrou um reino maior que a minha decadência. Nesse lugar havia rosas e também os seus espinhos: Minhas fronteiras desatadas por um castigo dito justo Agora me mostravam o mundo faminto de mais um morador.”
Sobre a autoria
Maykel M. de Paiva
@m.lekyamMaykel Mizael de Paiva nasceu dia 19 de dezembro de 1993, na cidade de Goiânia, em Goiás. Bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), pretende seguir carreira academia com estudos focados em Filosofia Moderna e Contemporânea, com destaque no autor Baruch Espinosa. Os seus primeiros versos começaram a ser feitos por volta dos 13 anos, influenciado pelas músicas da banda Evanescence, mas apenas com 16 teve coragem de divulgá-los, motivado por um conselho de uma professora de Português. Foi então que surgiu o blog “Devaneios de uma mente insana”, rebatizado hoje de “Das estações” (www.thoughtsofmaykel.blogspot.com). Foi no blog que outros estilos começaram a ser experimentados além da poesia, como a prosa poética e o conto. Apesar de não estar tão movimentado como em seu início, o blog continua ativo como um espaço de expressão e divulgação. Admirador profundo do escritor português José Saramago, foi em sua figura que começou a perceber que a escrita poderia ser também uma carreira. Assim surgiu o livro “Todas as cores”.
Ficha técnica
| Autoria | Maykel M. de Paiva | @m.lekyam |
|---|---|---|
| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Khálysto Soares | @khalysto.soares |
| Revisão | Matheus Mitre | @mmitretayar |
Contato
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