A dor virada do avesso
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Seja o que fosse, os fantasmas dos natais passados estavam sempre presentes na casa dos Pereira.
Sobre o livro
Em “A dor virada do avesso”, acompanhamos o jovem Miguel em um feriado de Natal na casa de seus avós, localizada em um lugar que simboliza a tensão entre liberdade e rigidez. Através dos olhos do menino de quase oito anos, somos introduzidos a uma família onde o cotidiano aparentemente comum esconde ressentimentos e segredos de um passado não resolvido. A narrativa explora o processo de amadurecimento de Miguel enquanto ele percebe as dinâmicas complexas e as dores silenciosas que permeiam as relações familiares, sugerindo que nenhuma dessas dores permanecerá oculta para sempre. O livro convida o leitor a refletir sobre os papéis familiares e as emoções reprimidas, sob a perspectiva sensível da infância em um ambiente carregado de expectativas e memórias.
Por que publicamos
“A dor virada do avesso” acompanha um menino de quase oito anos num Natal na casa dos avós e faz da infância uma lente rigorosa. O livro olha para o que a criança percebe, cala e inventa para dar conta do que os adultos não dizem. É uma estreia que confia no detalhe, nas brincadeiras, nas comidas e nas rezas, para construir uma família inteira.
Publicamos este romance porque Maria Laura López encontra uma linguagem sensível e direta para a dor silenciosa, o humor miúdo e a imaginação infantil, sem didatismo. É literatura contemporânea brasileira que respeita o leitor e deixa o não dito trabalhar.
“"Ninguém soube direito o que fazer depois que o carro parou na garagem da vó Aparecida naquela manhã de domingo. Entre a rotina de desatar os cintos e fechar as janelas, os quatro ocupantes do carro soltavam pequenos suspiros inaudíveis e cada um tinha a cabeça em algum lugar, mas todos estavam ansiosos para saber o que os aguardava naquela véspera de Natal. Quanto tempo até que a primeira pessoa reclamasse da demora na ceia? Quantos dedos passariam na torta de biscoito até que fosse hora de servi-la? Quem deles seria o primeiro a falar mal dos vizinhos? Teriam mais algum ataque cardíaco ou parto natalino? Seja o que fosse, os fantasmas dos natais passados estavam sempre presentes na casa dos Pereira. Carla foi a primeira a quebrar o estado de imobilização. Abriu o porta-malas e começou a descarregar a bagagem, esperando pela ajuda dos filhos.””
“"Ela percebia a contradição das brincadeiras extrovertidas com o casulo em que ele se fechava para aproximações. Eles eram parecidos em muitas coisas. Curiosamente, naquele momento, Miguel sentiu uma vontade enorme de deitar no colo da irmã. – Dá para ver a lua daqui! – falou, apontando para o alto. – Mas tá de dia ainda, não era para ela aparecer agora. – Às vezes ela faz isso, parece que esqueceu de ir embora – respondeu Amanda, sem nem olhar para o céu. – É, acho que aqui vai ser um bom lugar – disse ele, pensativo. – Vou te falar um negócio, mas não é para contar nem pro Zeca nem para a mamãe, tá bom? Eu vou encontrar o Papai Noel hoje. – Ah, é? – falou a garota, com um sorriso no rosto. – Cê marcou com ele? – Cê é besta, é? Como que eu ia falar com ele?””
“"Carla empurrou o braço do pai, a mãe, o filho. O corpo de labareda fez voar os copos do escorredor e se jogou contra o armário na tentativa desesperada de manter o equilíbrio. Tudo que viu pela frente queimou um pouco, senão ao toque, à palavra. No começo, não entendiam o que ela dizia. O pai ainda tentava, pedia para ela se acalmar, falar com ele. Mas Miguel não queria ouvir nada, pressionou as palmas das mãos contra as orelhas e gritou, abrindo a boca até rachar o canto dos lábios. No esgoelamento de mãe e filho, não tinha apenas o desejo de abrir e mostrar a goela, tinha a agonia marcada de sair, trocar de lugar o dentro e o fora. O pedido implorado de virar a dor do avesso.””

Maria Laura López
Maria Laura López é escritora e jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Nascida no Espírito Santo, mudou-se para São Paulo em 2018, onde vive até hoje. A autora já teve textos publicados na antologia bilíngue de contos brasileiros da editora latino-americana Palabra Herida e no “Dicionário de Ruas” do Arquivo Histórico Municipal de São Paulo. “A dor virada do avesso” é o seu primeiro livro.
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Mondru · 104 pages
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