O universo do Compêndio das Grandes e Pequenas Existências convida o leitor a uma experiência literária incomum, onde a ficção fantástica se mistura com a exploração filosófica e histórica do pensamento humano. Longe de ser uma narrativa linear convencional, o livro constrói seu mundo através de cinco textos independentes, mas intimamente conectados por um fio condutor fascinante: a existência, a origem e o convívio de raças de gigantes e de pigmeus. Mais do que apresentar aventuras isoladas, a obra propõe uma viagem no tempo através dos diferentes estilos literários que marcaram o desenvolvimento da nossa própria civilização.
A jornada por este universo começa nas brumas da antiguidade, onde o primeiro texto assume a forma de um épico mitológico. Com influências que mesclam a tradição grega de Homero e o misticismo gnóstico, a narrativa descreve a origem do mundo a partir do Caos, da luz e da sombra, culminando na criação de uma raça de gigantes potentes e orgulhosos, e de pigmeus engenhosos e sábios. Esse conflito primordial molda a terra e define o início dos tempos através de guerras épicas e dilúvios enviados por deuses enciumados. Em seguida, o tom transita para o campo da religião com um texto de estilo bíblico apócrifo. Nele, acompanhamos o drama de Adão e Eva que, após serem expulsos do Jardim do Éden — onde viviam em estaturas agigantadas —, percebem-se repentinamente como seres minúsculos em um mundo vasto e assustador, sendo frequentemente tentados por uma figura demoníaca que se disfarça de gigante ou de anjo de luz.
Avançando pelas eras do imaginário humano, o terceiro texto mergulha no folclore e na tradição oral, apresentando um conto de fadas original aos moldes dos Irmãos Grimm. Acompanhamos Marla, uma jovem raptada que, na Terra dos Gigantes e dos Pigmeus, precisa lidar com bruxas, dragões, serpentes monstruosas e transformações mágicas em sua estatura enquanto busca retornar ao seu reino com majestade. Contrastando radicalmente com essa magia folclórica, o quarto texto transporta o leitor para a Era da Razão através de um ensaio científico fictício. Escrito como se fosse da autoria de Charles Darwin, o ensaio analisa de forma meticulosamente lógica e biológica a evolução, a anatomia, o intelecto e os hábitos sociais das populações de gigantes (como o Homo magnum) e de pigmeus (como o Homo mediocris e o Homo parvus), conferindo uma roupagem de plausibilidade científica a esses seres extremos.
O último texto aprofunda ainda mais essa sensação de realidade através de uma narrativa confessional e epistolar. Lemos as correspondências de um avô que escreve aos seus netos relatando suas viagens reais por essa terra dividida. Ao transitar como um "homem de estatura normal" entre as colossais cidades e cânions dos gigantes e as elaboradas e minúsculas vilas dos pigmeus, o avô funciona como a âncora do leitor nesse mundo bizarro. Suas cartas revelam as belezas, os preconceitos, as peculiaridades geográficas e as angústias de pertencer a escalas de tamanho tão excludentes, amarrando os ecos mitológicos e científicos das histórias anteriores em vivências cotidianas palpáveis.
Ao atravessar essas cinco dimensões narrativas, o universo do livro se revela como um grande espelho da própria condição humana. Sem entregar respostas fáceis ou incorrer em anacronismos forçados, a obra desafia o leitor a refletir sobre temas profundos como o determinismo biológico, o etnocentrismo, o papel da mulher e o medo que nutrimos por aquilo que é diferente de nós. Para que o grande quebra-cabeça existencial e narrativo faça pleno sentido, é exigida uma leitura atenta de cabo a rabo, garantindo que a amarração final revele não apenas os segredos dos grandes e dos pequenos, mas a grandiosidade de nossa própria capacidade de buscar perspectivas no mundo.
Sobre a obra
- Gênero
- Contos
- Selo
- Mondru
- Formato
- 21 × 28 cm
- Lançamento
- 13/08/2026
- ISBN
- 978-65-6042-249-0
- Preço de capa
- R$ 79,90
Essa é uma coletânea de cinco textos independentes derivados de escrita criativa nos limites da ficção fantástica. Conta-se a história dos gigantes e dos pigmeus, com todos os desdobramentos de suas metáforas a partir de produções escritas conforme a humanidade – ou no mínimo o Ocidente – desenvolveu-se em determinado sentido, passando, portanto, pela mitologia ou superstição; pela religião; pelo imaginário popular que misturava cotidiano com religião ou superstição; pelo racionalismo; e pela narrativa onde tudo se confunde. A primeira história narra uma mitologia homérica que mistura certos ideários gregos com elementos da mitologia judaica, valendo-se como base do gnosticismo, ao passo que a segunda história é um livro bíblico em sentido estilístico e na maioria da história contada. Segue-se por um conto de fadas, com estilo emprestado dos Irmãos Grimm, percorre-se um ensaio de caráter científico, ainda que seja totalmente fictício, e tudo termina com as cartas de um avô aos netos contando-lhes sobre a história que vive com os grandes e os pequenos, em uma amarração na forma de uma aventura.
Citações
“E ao misturar-se entre si, confundirão seus destinos: os grandes verão os pequenos e buscarão destruí-los; e os pequenos, conhecendo o jugo que os prende, erguer-se-ão contra os grandes em luta contínua; e assim travarão guerra sem fim entre si, para que nunca alcancem o saber de quem os criou." Por que funciona: Apresenta a premissa fantástica central do universo (a guerra entre gigantes e pigmeus) com um tom épico e trágico, despertando a curiosidade para a mitologia profunda da criação que move as engrenagens da história. "Pois podiam olhar como gigantes ao céu, mas preferiram como pigmeus lamberem a terra. Olharam assim ao chão e não ao céu. Assim desobedecem minha Lei, gravada no início de tudo que existe, maior do que árvore onde comeram o fruto; e desobedeceram olhando para o chão, onde rastejava um animal que certamente seria ignorado por um gigante. Pois podíeis olhar aos céus, e olharam à terra. Podíeis ser gigantes, mas escolheram ser pigmeus." Por que funciona: Utiliza a metáfora do "grande" e do "pequeno" para reinterpretar uma história universalmente conhecida (a queda no Éden), transformando a estatura física em um profundo questionamento sobre as escolhas morais da humanidade. "Mas, aquele que observar toda a sorte de populações de Homo sapiens ao redor do globo, toda a barbárie que se possa presenciar, certamente não sentirá vergonha em admitir que o sangue de um ancestral comum com o gigante e com o pigmeu corra em suas veias. Contudo, pela minha parte, prefiro descender daquele gigante heroico na Pérsia que, em sua miséria, não perde o brio pela vida e a curiosidade, ou daquele que se arriscou para salvar triunfalmente um pobre macaco da alcatéia de lobos atônitos; em vez de descender de um selvagem de estatura normal que sente prazer em torturar seus inimigos, que oferece sacrifícios sangrentos, que pratica o infanticídio sem remorsos, que trata as suas mulheres como escravas, que ignora a decência, e que é assombrado pelas superstições mais grosseiras." Por que funciona: Provoca o leitor a questionar sua própria humanidade. É um trecho que vende o livro não apenas como fantasia, mas como uma afiada crítica social e biológica sobre os nossos piores instintos. "Pois, diante da religião, somos como pigmeus, diminutos frente a um grande Criador e sem compreensão plena de toda a Sua criação; mas, diante da ciência, desvendando as razões por trás dos fenômenos, somos como gigantes que dominaram do fogo às armas e nos aproximamos das verdades. Porém, diante de tal ciência, enquanto primatas que aqui ocupam sua posição passageira, somos mais uma vez pigmeus em meio a toda natureza, de maneira a não nos separarmos dela; ao passo que à imagem e semelhança do Criador, somos, então, mais uma vez gigantes, assim como somos gigantes ao nos aprofundarmos em nossa filosofia. E ao conhecer mais e mais, nos damos conta de que nada sabemos e voltamos, portanto, à posição de pigmeus." Por que funciona: É a citação definitiva para a contracapa do livro. Ela amarra perfeitamente o título da obra com a jornada existencial proposta nos cinco textos, resumindo o eterno paradoxo de ser humano.”
Sobre a autoria
Leonardo Menegatto
@leomenegattoLeonardo Menegatto é natural de Americana, SP. Engenheiro agrônomo, mestre e doutor em Genética, cansou de ler somente artigos científicos e lançou em 2024 o infantojuvenil A fantástica aventura de Ferdinando e quem eu lá conheci -- vencedor do Prêmio Book Brasil nas categorias Melhor Infantojuvenil e Obra Aclamada pelo Público. Participou de antologias de ficção, terminou originais de fantasia e em 2025 lançou a obra de realismo fantástico Na estranha imagem entre nós, discutindo os conflitos da personalidade. Vê na ficção mais do que um exercício imaginativo da prosa, mas, sobretudo, uma possibilidade de brincar com a forma do texto.
Ficha técnica
| Autoria | Leonardo Menegatto | @leomenegatto |
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| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Khálysto Soares | @khalysto.soares |
| Revisão | Letícia M. Zambon |
Contato
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