Uma nova voz surge no cenário da literatura fantástica nacional com o lançamento de "Lá em cima do piano tinha um copo de veneno", uma coletânea de oito contos escritos por Franco Alencastro. O livro propõe uma imersão profunda e, por vezes, perturbadora, naquilo que o autor define como a "macabra brasilidade". Com narrativas que transitam entre o horror, o suspense e a ficção científica, a obra se destaca pela originalidade ao mesclar elementos clássicos do fantástico com cenários e dilemas autenticamente brasileiros, do passado escravocrata ao futuro digital.
A coletânea apresenta uma notável diversidade temática, garantindo uma experiência de leitura dinâmica e imprevisível. Em "A Casa de Dona Henrieta" e "Veias Abertas", vampiros assombram o Rio de Janeiro e os corredores do poder em Brasília, respectivamente, reimaginando mitos consagrados em contextos urbanos e políticos contemporâneos. Já em "Domingo de Ramos", a trama mergulha no horror rural, onde uma jovem precisa confrontar não apenas os fantasmas literais de um passado escravocrata, mas também os preconceitos que assombram o presente de sua cidade natal.
A obra também se aventura por terrenos da ficção científica e do surrealismo, explorando questões de identidade e tecnologia. O conto "O Estranho Caso de John" apresenta, em formato de reportagem, a história de um carioca que, de um dia para o outro, esquece o português e passa a se comunicar apenas em inglês, tornando-se uma celebridade nacional. Em "A Sua Voz", somos levados a um futuro onde uma inteligência artificial, criada para compor sucessos pop, começa a desenvolver sentimentos próprios, questionando os limites entre a criação e o criador.
O que une essas histórias tão distintas é a habilidade de Alencastro em explorar a crueldade e as tensões sociais latentes no cotidiano. O conto "Vulgar Demonstração de Poder" é um exemplo contundente, no qual três jovens ricos capturam um de seus assaltantes e são confrontados com os limites da própria brutalidade. Da mesma forma, "Primeiro Tempo" utiliza o cenário ufanista de um jogo do Brasil na Copa do Mundo para expor a vulnerabilidade e a impotência sentidas durante um assalto em plena luz do dia.
Com uma prosa afiada e uma imaginação fértil, Alencastro constrói universos que são, ao mesmo tempo, fantásticos e estranhamente familiares. Os contos provocam o leitor ao investigar o que há de mais sombrio não apenas em monstros folclóricos ou tecnologias futuristas, mas na própria condição humana. A violência, o preconceito, a busca por identidade e as complexas relações de poder são dissecados de maneira original e impactante.
"Lá em cima do piano tinha um copo de veneno" se firma como uma leitura essencial para os apreciadores do fantástico que buscam narrativas com profundidade e relevância. É uma obra que não tem medo de explorar as veias abertas de uma identidade nacional complexa, provando que as histórias mais assustadoras são aquelas que refletem as nossas próprias contradições. O livro convida a uma reflexão sobre a melodia sombria que compõe a experiência brasileira, muito além do verso infantil que lhe dá o título.
Sobre a obra
- Gênero
- Contos
- Selo
- Mondru
- Páginas
- 192
- Formato
- 14 × 21 cm
- Lançamento
- 24/10/2025
- ISBN
- 978-65-6042-215-5
- Preço de capa
- R$ 59,90
“Lá em cima do piano tinha um copo de veneno” é uma coletânea de oito contos que exploram o lado sombrio da identidade brasileira, misturando horror, suspense e ficção científica. As narrativas mergulham em cenários que vão do Rio de Janeiro assombrado por vampiros e de um interior marcado pelos fantasmas da escravidão, até um futuro onde uma inteligência artificial desenvolve sentimentos e um presente alternativo em que um carioca inexplicavelmente esquece o português. Unindo as histórias, há um fio condutor que investiga a crueldade, os dilemas de identidade e as tensões sociais, revelando o extraordinário e o macabro ocultos no cotidiano.
Citações
“Eu sei quem você é. Provavelmente volta para casa todo dia depois do trabalho, senta a bunda no sofá, abre uma gelada e não pensa mais nisso. Mas “nisso” é exatamente onde você termina e eu começo. Eu sei quem você é, mas você não sabe quem eu sou, porque o meu mundo começa onde o seu termina. Poético, né? Essa frase nem é minha, é do meu parceiro Enéas. O Enéas é metido a poeta, o que às vezes é bom e às vezes é irritante.”
“Cada pisada forte fazia com que ele pensasse mais e mais no rosto daquele moleque. O medo que sentia há apenas momentos antes já havia sido substituído por um coquetel sombrio de ressentimento e ódio. Filmes dançavam em sua cabeça em que policiais do BOPE entravam na casa do moleque, que estava rindo mexendo no celular, ele levantava lentamente o rosto enquanto o áudio do vídeo que estava assistindo continuava a tocar. O policial lançava uma bala que estourava seu peito, deixando uma rosa aberta nele, escorrendo sua seiva vermelha. Depois, ele apanhava de diversas maneiras, antes de ser jogado numa vala.”
“Fernando depois jogou mais umas pedras, e o homem deu meia-volta. Quando Lila pediu uma explicação a Fernando, ele não deu. Pegava-se volta e meia pensando naquilo. Foi, lembra-se, a primeira vez que se sentiu assustada com uma pessoa diferente de si, e contou aquilo para seus pais, que sentaram com ela para conversar. Depois que entrou na faculdade, ligou os pontos e chegou à conclusão que Fernando, criado por uma avó prussiana ranzinza e desagradável, reproduzia o racismo com que foi criado. A chance de evitar aquela variante provinciana de preconceito arraigado era um dos motivos que a levava a ser grata a seus pais por terem dado a ela a oportunidade de morar no Rio de Janeiro.”
“— Vocês sempre vêm aqui, né — ele disse. — Vêm atrapalhar nossa praia, nosso descanso, porra, nossa vida. Como se esses celulares e sei lá o que mais fossem mudar sua vida. Só que não vão. Porque você é um merda. [...] Você pode roubar as minhas coisas, mas nunca vai ser que nem eu, porque não trabalhou nem estudou. Vai continuar a ser um ninguém. Se quer conseguir alguma coisa, trabalha ou estuda. Mas tenho a impressão que agora é tarde. Você não sai vivo daqui.”
“Por que você acha que tantos acharam que Laur4 fosse humana de início? Em alguma medida, ela era sim humana. Mais humana, talvez, que nós aqui nesta sala. Humana demais, quem sabe, o que talvez explique o porquê de eu me encontrar aqui agora.”
Sobre a autoria
Franco Alencastro
Franco Alencastro gosta de ler desde pequeno. Nascido e criado no Rio de Janeiro, é formado em Relações Internacionais pela PUC-Rio, e procura criar histórias que unem cenários imaginários à reflexões políticas e sociais. Em 2020, faz sua estreia pela Plutão Livros, com a ficção científica ‘Starllite’. Vive atualmente no bairro do Leme, ao lado de sua noiva e um par de gatos.
Ficha técnica
| Autoria | Franco Alencastro | |
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| Editor | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Capa e projeto gráfico | Jeferson Barbosa | @jeferson3barbosa |
| Coordenação editorial | Juliana Matos | @juliana3matos |
| Assistente editorial | Khálysto Soares | @khalysto.soares |
| Revisão | Sabryne Cunha de Matos |
Contato
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