Ela mesma como fantasma de si
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Era real a percepção de si quando se deparava com as histórias de seu corpo.
Sobre o livro
Ao retornar à antiga casa de campo de sua infância, Elara mergulha em um território onde o tempo parece suspenso e as memórias se manifestam em formas sutis, sensoriais e por vezes fantasmagóricas. Em meio à solidão da casa, à presença simbólica da natureza e à aparição recorrente de um caracol, ela revisita as marcas do abandono materno, do luto por uma amiga e das lacunas deixadas pelo silêncio familiar. Cada objeto, cada ruído, cada sombra é um convite à escuta profunda de si mesma. Com uma escrita lírica e atmosférica, Gabriela Queiroz constrói uma narrativa que entrelaça corpo, memória e paisagem, propondo uma jornada espiralada em que o passado não é apenas lembrança, mas presença viva e transformadora. Ela mesma como fantasma de si é um romance sobre feridas invisíveis, vínculos interrompidos e a possibilidade de reencontro com o que resta — e com quem se é — após a perda.
suicídio ou automutilação
Por que publicamos
Publicamos Ela mesma como fantasma de si pela ousadia da linguagem. A prosa mistura lirismo e fragmento, e casa, lago e pedra deixam de ser cenário para conduzir a protagonista. O romance confia na imagem e na atmosfera, e pede uma leitura atenta, sem pressa.
Gabriela Queiroz trabalha memória, luto e ausência sem oferecer respostas prontas, em diálogo com a tradição introspectiva e com o gótico contemporâneo. O resultado é um livro de estrutura espiralada, que se constrói pela repetição e pela variação, e que reafirma o interesse da Mondru por uma literatura contemporânea de voz autoral.
““Quando o tecido frágil da pele é rasgado por um corte, a ardência latejante não acontece de imediato, há aqueles segundos minúsculos antes de a dor percorrer o corpo, em que a fusão de sensações penetra nas veias e na respiração. É só depois da consciência do ato e do vislumbre vermelho de um sangue fresco, que a dor começa a ser sentida. Depois que as células se regeneram, a lesão é fechada. E, então, é selada a ruptura dos segundos intermediários. Enquanto voltava para a casa, Elara reparava na cicatriz vertical que ganhou na panturrilha após um acidente de bicicleta. Nos dedos da mão esquerda, uma tentativa de cortar o filé de frango em cubos pequenos, “pra uma chef, é tão desastrada”, a voz de seu pai escorria enquanto enfaixava o corte profundo que jorrava vermelho. Era real a percepção de si quando se deparava com as histórias de seu corpo.””
““Naquele começo de tarde, tudo era dúbio e flutuante, o corpo da mãe não parecia real, ainda que se apresentasse para Elara em perfeito estado de realidade. O cheiro do chá, as leves ondas de calor que entravam pela janela, o silêncio do campo, as cores das paredes, eram reais, sabia, mas o efeito absurdo flutuava como possibilidades extravagantes. Para ela, o único traço que lhe soava real na imagem da mãe eram seus olhos cor de castanha, úmidos e com um leve tom de loucura e prostração. Havia dois corpos frente a frente: um em uma espiral interminável, confundido na metamorfose do caracol, respingando incertezas e interrogações agigantadas, naquela fração que comprimia o irresoluto de tantos anos; o outro, geométrico, em uma forma misteriosa e insolúvel, pairando em certeza, no superlativo da presença mais concreta que se poderia ter. Apesar de qualquer conjuntura, os dois corpos se enfrentavam sem lástima. O corpo geométrico pedia com os olhos por clemência, enquanto o corpo espiral lhe atendia, pela respiração calma, com misericórdia.””
““Pensava conhecer Marina tão bem, melhor do que a si mesma, e a culpa de não ter captado os sinais, que pareciam não existir, corroía seus átomos dia após dia. Por nove meses escutava o som das sirenes, e era violentamente invadida pela imagem de Marina se atirando do parapeito do nono andar. Agora, no lago, de joelhos sobre a manta quadriculada, o som e a imagem desapareciam, dando lugar à brecha que Elara tanto procurou, uma imagem que fugia das duas dicotomias de Marina, uma nova perspectiva surgia entre as pedras, a água e a grama, e ela sentia florescendo nas veias um respiro complacente e fértil.””
““Fazia pouco tempo que Elara havia chegado à casa de campo, com pouca bagagem e uma sensação iminente de clareza. De formato retangular, e pequenas janelas embaçadas com a poeira – que denunciava a falta de uma visita havia muito tempo –, a antiga casa de seu pai ilustrava boa parte de sua infância, e a imagem que, no primeiro momento de retorno, se fazia nebulosa e com traços abstratos, aos poucos foi se revelando concreta e real. As folhagens que revestiam os tijolos eram de um corpo supremo, e lhe passavam a sensação etérea de uma beleza que há tempos ela não notava no cotidiano da cidade. O verde do campo não era banal, e chegava a ser quase utópico, na paisagem que se erguia diante de si, e ela se perguntava como aquele lugar ficou desocupado por tanto tempo. O pai de Elara não pisava naquela propriedade desde que ela tinha 14 anos, mas nunca alugou ou emprestou a casa para ninguém. Era como se as paredes sussurrassem alguma coisa que parecia ter ficado para trás quando as portas foram trancadas pela última vez, mas que queria, desesperada e furiosamente, se revelar.””
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Já aconteceram

Gabriela Queiroz
Gabriela Queiroz é escritora, acadêmica de Letras e Editora-Assistente na Mondru Editora, atuando na área editorial e na realização de leitura crítica dos originais. Autora do livro “Na Consciência da Natureza que Me Compõe” (semifinalista do Prêmio Troféu Capivara) e de dois contos da coletânea “Realidades Estilhaçadas”, ambos publicados em 2023 pela Mondru Editora. Seu trabalho na escrita transita entre a prosa e a poesia. “Ela mesma como fantasma de si” é seu primeiro romance.
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Mondru · Novel · 168 pages
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