Não volte sem ele
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Desde que Antônio partira, sua voz havia secado como as águas do açude — uma seca diferente, que vinha de dentro.
Sobre o livro
1932, sertão do Ceará. Tomás tem apenas uma missão: encontrar o irmão Antônio, que, após se mudar para a capital, parou de mandar notícias. Com a seca devorando a terra e a família à beira da fome, o jovem parte levando consigo a santa de madeira que protegeu gerações dos Alves e uma ordem do pai que ecoa como sentença: “Não volte sem ele”.
Mas o que Tomás não imagina é que sua busca o levará aos portões dos temidos campos de concentração — cercados de arame farpado onde o governo confinou milhares de retirantes durante a Grande Seca. Ali, entre doença, morte e desespero, ele descobrirá verdades devastadoras sobre o destino do irmão e sobre si mesmo.
Baseado em fatos reais que o Brasil preferiu esquecer, Não Volte Sem Ele é um romance arrebatador sobre os laços familiares que resistem mesmo diante do horror. Uma história que precisa ser contada — e lembrada.
violência explícita; discriminação retratada
Por que publicamos
Não volte sem ele parte de um episódio real e pouco lembrado da história brasileira, os campos de concentração da Grande Seca no Ceará, e o transforma em romance sem perder o pé na terra. Na estreia, Rafael Caneca se apoia em extensa pesquisa para dar rosto a uma história que costuma aparecer só em números.
A força do livro está em contar o horror pela via íntima: uma família, uma promessa, uma ordem que pesa sobre os ombros de um jovem. A prosa é atenta ao sertão e aos sentidos, e une memória histórica e literatura de modo que o leitor sente antes de compreender. Publicamos esta obra por acreditar que é uma história que precisa ser lida.
“Colocou a imagem nas mãos do filho com a mesma seriedade com que se entrega uma responsabilidade inescapável. [...] — Não volte sem o Antônio. A ordem pairou no ar como poeira em suspensão. Tomás permaneceu sentado, o peso da santa nas mãos, o peso da missão nos ombros. Não era uma viagem — era uma ordem, uma obrigação que carregava o mesmo peso das leis antigas do sertão.”
“Do lado de fora, ouvia-se apenas o raspar metódico da vassoura no terreiro. Umbelina estava lá, em seu ritual diário de limpeza, um silêncio mais eloquente que qualquer palavra dita. Desde que Antônio partira, sua voz havia secado como as águas do açude — uma seca diferente, que vinha de dentro. Mas seus olhos, grandes e escuros como duas jabuticabas maduras, falavam por ela, carregando toda a dor e a esperança que sua garganta já não conseguia expressar.”
“"— A seca não é nosso pior mal. O pior é ser tratado como bicho. [...] Sabe por que estamos aqui? — o velho continuou, aos sussurros. — Pra não sujar Fortaleza com nossa miséria. A capital tá bonita, cheia de luz elétrica e gente fina. Não querem miserável nas ruas.", "— Isso aqui tá parecendo um curral de gente. Era verdade. Estavam ali como bichos, cercados, controlados, esperando um destino que não escolheram. Os mais fortes eram selecionados para trabalhar na construção do açude, na limpeza do campo ou ajudar a cavar as valas onde enterravam os mortos — e, em troca, receber uma porção extra de comida.", "No alto da colina, os homens da Inspetoria faziam suas anotações. Menos um retirante… mais um número na lista dos mortos… [...] Em breve, nem isso sobraria: os arquivos do Campo do Patu — nomes, datas, números frios que tentavam conter vidas inteiras —, como tantos outros registros daquele tempo, seriam levados pelo vento e se perderiam junto com a poeira do sertão, como se a própria memória oficial daquele lugar se recusasse a persistir.",”
Onde este livro esteve.
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Já aconteceram

Rafael Caneca
Rafael Caneca nasceu em Fortaleza, Ceará, onde vive até hoje, e tem como principais influências literárias Machado de Assis, Graciliano Ramos e José Saramago.
Apaixonado por futebol, formado em Direito e servidor público, foi aspirante a diplomata antes de retornar à literatura, seu verdadeiro campo de batalha. Integra o Coletivo Delirantes de Escritores e mantém, há mais de dez anos, o Pacote de Textos, perfil dedicado a incentivar o hábito da leitura.
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Mondru · 160 pages
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