Frevo noir
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Um morador-raiz que se preze deve, por princípio, resistir ao sequestro do sossego.
Sobre o livro
“Frevo Noir” é uma coletânea de contos que explora as ambiguidades da alma humana e da sociedade brasileira, tendo o carnaval e a cidade do Recife como cenário. As narrativas mergulham nas sombras e contradições da vida, apresentando personagens complexas e enredadas em situações de tensão e desconfiança, onde a linha entre o gozo e a escassez é tênue. A obra aborda temas como desigualdade social, violência e a busca por sentido, utilizando uma linguagem que mistura lirismo, ironia e suspense, com uma forte influência da sonoridade do frevo e do jazz. A atmosfera noir perpassa as histórias, com elementos de mistério e uma paleta de cores que remete ao lado sombrio das festividades. Os contos são interligados por imagens recorrentes, como a dos caranguejos, que simbolizam a marcha da vida em meio ao caos.
violência explícita; linguagem forte; uso de drogas; discriminação retratada
Por que publicamos
Frevo noir olha o carnaval pelo avesso. Em vez da festa de cartão-postal, acompanha a ladeira, o beco, a ponte e a chuva, onde a alegria convive com a desigualdade e a desconfiança. Os contos passam pelo suspense, pelo humor ácido e pelo lirismo sem se acomodar em nenhum gênero.
A coletânea se divide em quatro pulsações, como compassos de um frevo, e a linguagem tem ritmo próprio, com ecos de jazz e de música pernambucana. Os caranguejos que reaparecem entre os contos costuram o conjunto. Publicamos este livro porque ele arrisca forma e voz e oferece ao leitor um Recife pouco domesticado.
““O barulho é doce da fanfarra: clarinetas, pistons, trombones, trompetes e mais alguns trombones e trompetes, que o frevo é um jazz, sempre se repete e se repetindo eu já adivinho um dueto de Miles Davis e Capiba quando pela janela de um sobrado cintila na penteadeira da velha o esgar jocoso do boneco em seu dente de ouro: minha alma gracejando de mim. Júbilo, culpa, náusea, espasmo, Juliana, vertigem, estouro, queda... Despenco espalhado na noite feito bomba de confetes.””
“Maquiagem no grau, cicatriz, Iara Eurídice largou o boy da tattoo Ralph Lauren na cidadezinha do fuxico. Sem essa de dias certos com pessoas erradas, estamos sangue na cabeça, repõe os óculos de sol ao ritmo de alto-falantes, Vassourinhas e Frevo mulher, fazendo tombar a máscara do corcel num frevo preto de prazer e dor...”
“Faz pelo menos doze horas de toró, e um minuto, um minuto que eu não ouço passadas nem resmungos. Do lado de cá, fios de gato da vizinhança soltam suas headphone paraguaio, há tempos tive um sonho, não me lembro, não me lembro, dessa eu guardo o vinil da jovem Íris, que ela teria afanado dum mangueboy nos anos 1990, mas aqui é só o traficante Diogo vindo nos resgatar. Ele não conhece a letra, mas tira os óculos como se conhecesse, e fala com os gestos adoçados pelo hip hop ou pelo funk, o roqueiro corrompido no passinho, simbora, comparsa, chega aí no sombreiro. Estiro os braços. Desisto, o que teria havido para o meu rival já não ter espancado a porta? ‘— Bora, Diogo. Me ajuda aqui com o Frankenstein.’ ‘— Bote fé, doutor Daniel.’ Água pelas canelas, fibras e músculos, toda a massa do corpanzil naquele estado, tosse por reação do peito, recostado na parede, o supercílio e o nariz empapados de sangue e suor, pega pelos pés, Diogo, eu sustento pelos braços, segura, passa, espera, vamos, pega o pó que for preciso, leva a chefia na manha, depois ele paga, eu garanto. Desatamos a corda das toras que improvisavam a embarcação e ali eu chego a dizer que não voltasse pra qualquer socorro, jangada sem leme ou remos obra na antiga masmorra de dormir ou só escombros? E que obra por acaso teria sido essa, hein, meu brother? Quem sabe o que jaz nas profundezas dos oceanos?”

Paulo André Souza
Paulo André Souza é um recifense, delegado da Polícia Federal e escritor de ficção, com uma predileção pelo thriller social e existencialista. Ele publicou contos em antologias, tendo recebido prêmios por seu trabalho. Sua formação em escrita criativa inclui a extensão pela PUCRS, em 2017, e uma oficina no Centro Cultural Raimundo Carrero, no Recife, em 2020. Frevo noir é sua primeira obra individual, uma coletânea de contos que explora as contradições humanas e sociais a partir da metáfora do carnaval. Nas redes sociais, o autor pode ser encontrado em @p.a._souza.
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Mondru · Short Stories · 144 pages
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